É definitivamente um dos melhores filmes que alguma vez tive ensejo de ver e rever.
Trata-se de um dos mais poderosos [e também impiedosos] retratos ficcionais do nazismo.Descobertas ["trouvailles"] narrativas notáveis como aquela da personagem que marca o assassino com o M fatal nas costas remetem abertamente para o "branding" dos judeus no período hitleriano.
O filme constitui um impressionante fresco do quotidiano dessa Alemanha policial, permanente e obsessivamente vigiada.
Alguns analistas chamaram já a atenção dos espectadores de cinema para a ambiguidade de que se reveste a polícia ao longo de toda a Obra de Lang, inclusivamente nos filmes do 'período americano'.
A verdade é aqui essa ambiguidade assume um registo e um propósito satírico com o facto de serem os ladrões os polícias que descobrem o assassino, como se o realizador estivesse implicitamente a identificar a polícia, as forças da lei, numa Alemanha politicamente apodrecida e o próprio crime.
Sequências como aquela em que Frau Beckmann espera [em vão, aliás, como se sabe] o regresso da filha Elsie remetem para a natureza policial da sociedade alemã, com os cidadãos como que cercados na própria casa, tentando tão ansiosa quanto temerosamente saber o que se passa "lá fora".
E o que se passa é o resultado de um formigar de denunciantes que, com os seus sombrios manejos conseguem extrair de cada um o que de pior há nele, semeando a suspeita e o medo.
Ñotável é também o modo como Lang equaciona o problema da culpa: é o assassino culpado dos seus sactos ou a vítima, no fundo, passiva das pulsões que a doença mental nele plantou?
Por outras palavras: é ele um culpado genuíno ou algu´ém vítima de uma condição que o ultrapassa como indivíduo, como pessoa?
Tal como não dependia dos judeus sê-lo na medida em que obviamente ser judeu, sendo "crime" nessa tenebrosa Alemanha hitleriana, não resulta de um acto de vontade de cada um. Trata-se, portanto de uma "responsabilidade" colectiva que não deveria poder ser assacada a cada indivíduo per se, exactamente porque não é legítimo nem justo que os indivíduos espiem culpas que não são efectiva mente suas.
As sequências finais do filme horrorizam não apenas pelo facto de os polícias" e os "juízes" serem literalmente autênticos bandidos mas também e sobretudo precisamente por aquela circunstância de o indivíduo, a pessoa e a culpa que lhe é atribuída não coincidirem e ele na realidade estar a pagar por uma condição de, que num certo sentido [perfeitamente demonstrável, aliás], se acha por inteiro "inocente".
Tal como horrorizam pelas memórias que se lhes associam as sequências em que greupos de pessoas são "arrebanhadas" ["round up"] e metidas em camiões, como sucedia nas rusgas anti-judaicas...
As "citações" deste género que o filme de Lang subtilmente introduz na narrativa são, de facto, verdadeiros achados que situam poderosamente o filme num universo histórico, cultu[r]al, social e político verdadeiramente sinistro onde criminosos e inocentes, masrginais, polícias e juízes, de forma inquietante, amiúde se confundem.

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