quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"«La Règle du Jeu» de Renoir [1939]"




Travei contacto directo já algo tardiamente com a obra-prima de Renoir, durante o estágio, em larga medida por influência do Gastão Cruz que troxe para o grupo a notícia da reposição do filme no "Monumental" onde fui vê-lo.
Curiosamente, os meus primeiros contactos com o cinema sério e a sério ocurreram através de películas muito mais antigas, no extinto S.N.I. onde teve lugar um conjunto de exibições de filmes mudos que incluíu o para mim inesquecível "Un Chien Andalou" de Buñuel e Dali que vi juntamente com o nãso menos clássico "Entr' Acte" de Clair; "La Souriante Madame Beudet" de  Germanie Dullac, "La Chute de La Maison  Usher", de Epstein e também [porque venho aqui falar de Jean Renoir] de um Renoir mais antigo "Boudou Sauvé des Eaux", com Michel Simon.
Este  "La Règle du Jeu" é, efectivamente, uma obra prodigiosa, o "divertimento narrativo" empolgante, de um cineasta inteligente e profundamente sensível, visivelmente apaixonado com uma paixão tão «militante» quanto contagiante, não apenas pelas suas personagens como pelo próprio Cinema que lhe permitiu criá-las.
Mas o filme é também noutro plano mais imediato e objectivo um fabuloso estudo sobre a própria fragilidade [efemeridade e mesmo vulnerabilidade] dos fundamentos e dos mecanismos do poder, todo ele assente numa "règle" de um "jeu" que a qualquer momento, qualquer um pode bruscamente deixar de aceitarr jogar, perturbando [e impossibilitando!] o desenvolvimento ulterior do mesmo.
É o que acontece quando Schumacher se descobre como pessoa e homem muito mais do que guarda-caça do patrão e recusa  cumprir as ordens deste, franqueando de golpe a ténue e muitas vezes apenas convencional fronteira entre as classes, entrando no salão aos tiros que assustam toda a gente, obrigada a impor-se não já com o apoio e a protecção do estatuto social mas simplesmente como tantas outras pessoas, entregues a si mesmas, numa espécie de metáfora e paródia satírica da Revolução.  
Curiosa é de igual modo, a mensagem de que desprovidos do escudo ou da carapaça das convenções sociais e políticas, os homens são todos iguais, partlhando situações e circunstâncias  como a do adultério.



Com algum óbvio simbolismo, o próprio Renoir anda «lá pelo meio», tomando parte na «revolução», como reforçando a sua convicção  na mensagem que [em meu entender, pelo menos] pretende transmitir com o filme.
Renoir como Monicelli distingue-se pelo uso social e político que um e outro, cada um a seu modo, fazem do riso---e de um modo mais lato, do cinema e em particular da comédia.
Ou, se assim se prefertir dizer, da farsa.
À farsa que é a ordem social tal como nos surge à primeira vista, i.e. como algo de efectivamente substantivo e também em si mesmo irrecusável pois, insisto a "regra do jogo" é na in/essência aceitar uma por uma todas as regras do jogo histórico, social e político tal como nos chegam impostas pelo hábito e pela "cultura". 

Sem comentários:

Enviar um comentário