quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"As subculturas como voz espontânea das culturas: Reflexões Pessoais em Torno de um «genre» pop: o Terror" [texto em construção]




Uma ideia que há muito defendo é a de que as sociedades e as culturas  falam de forma especialmente eloquente para quem as quer realmente escutar  através das formas subcultu[r]ais por elas geradas.
Uma dessas formas que se me afigura especialmente interessante e antropologicamente esclarecedora é o muito difundido e geralmente menos prezado [menosprezado] ao menos por uma certa exegese "séria", "genre" a que chamamos comummente  "de terror", género, de resto muito difícil de precisar, e que, para muitos praticamente começa e acaba com Walpole e o seu "Otranto" ou com Mary Shelley e o clássico "Frankenstein". No caso português, onde a confusão no que se refere a precisar os contornos e limites do «genre» não é menor, considera-se que, além de Teófilo de Braga, escrityor "canónico" e autor de uns muito divulgados "Contos Fantásticos", Álvaro do Carvalhal, de facto um «frenético» à semelhança de Washington Irving é o cultor exemplar de um género de literatura que não conheceu muitos mais cultores
Trata-se, exceptuando aquelees dois [e poucos mais, como o de Lewis e do seu famosíssimo "The Monk", "casos", de um género para todos os efeitos, efectivamente menor e mesmo "maldito", sobretudo na forma "gore" que assume muitas vezes no Cinema de um Wes Craven, por exemplo.
É verdade que autores como Andrew Gordon [1] dedicam a alguns produtos do «genre», estudos eruditos francamente originais e intelectualmente estimulantes; de um modo geral, porém, o público deste tipo de filmes acha-se perfeitamente circunscrito a grupos de "devotos" muito particulares, tão fiéis quanto em regra pouco críticos e ainda mais escassamente propensos a explorar com verdadeiros objectividade e rigor, o objecto da sua... "devoção".
A abordagem que o já citado Andrew Gordon propõe de um conjunto de três filmes cujo denominador comum é Steven Spielberg ["Poltergeist", dirigido por Tobe Hooper, "Aracnofobia" realizado por Frank Marshall, ambos contando com colaboração de Spielberg e "Close Encounters of The Third Degree", dirigido pelo próprio Spielberg.
Segundo Gordon estaríamos considerando este acervo de filmes [de onde pessoalmente me atreveria, a excluir, tendo em conta a abordagem a que aqui me interessa proceder, "Close Encounters..." para lhe agregar um série B que considero particularmente interessante, o clássico "Them" de Gordon Douglas] perante um conjunto de reflexões ficcionais sobre a família e especificamente sobre a ruptura das relações familiares [ou, pelo menos, perante a ameaça impendente da ruptura em causa] evitada em derradeira instância através de um reforço dos laços entre as pessoas ou, se assim se preferir, com a reconfirmação da coesão familiar ameaçada e em crise.
Gordon realça, de modo especial, o papel da Mãe em todo este processo.
Eu, que vejo em qualquer das películas citadas uma espécie de "confessionário ficcional" encriptado onde se descarrega uma enorme culpa colectiva, natural numa sociedade emergente de um «genocídio fundador»--o dos povos índios da América do Norte--para  além da que resulta de umas tantas circunstâncias de particular violência associada à intervenção das forças militares norte-americanas manifestamente incapazes de digerirem, por exemplo, no «caso» do filme de Douglas, o que pareceria à partida senão impossível, pelo menos francamente improvável como o «empate técnico» da guerra na Coreia de que "Them" parece, de facto, ser uma citação e uma espécie de evocação figurada, metafórica, «metaforizada» ou, como disse, críptica com aqueles ataques de lança-chamas levados a cabo nos túneis subterrâneos habitados pela população de formigas gigantes a fazerem, igualmente, lembrar a sangrenta batalha de Iwo Jima, durante a II Guerra Mundial. É, com efeito---em meu entender, pelo menos---muito difícil não ver como denominador comum não apenas do núcleo de filmes que citei mas, de igual modo, do que não hesito em considerar a maioria dos 'produtos' do «genre», o tema da Culpa e de uma certa legitimação expiatória que tem a meu ver, muito de objectivamente neurótico  e que faz o cineasta encenar o terror colectivo de ver ressurgir as vítimas de outrora, agora com poderes capazes de fazerem o agressor temer, ao mesmo tempo que lhe estimulam e excitam aquela, atrás referida, noção latente de culpa. Esta temática, a meu ver, sempre latente e não apenas no terror, \é, a meu ver, à sua maneira, uma componente estável [ compreensível e crucial, também!] do que convencionou designar-se pelo "white man's burden"... É possível vê-lo até na banda desenhada. Os criadores da personagem de Fantásio, com efeito, criaram uma história, cujo nome infelizmente, de momento, não me ocorre mas em que o herói acorda um dia completamente negro e vê, de repente fugir-lhe uma série de regalias de que gozava enquanto branco, numa espécie de versão soft das revelações tornadas públicas em "Black Like Me", um livro-reportagem de John Howard Griffin, um jornalista branco que simulou ser negro a fim de experimentar na pele as vivências de um negro verdadeiro.
Num e noutro caso, vejo o terror do colonizador ou membro da espécie/grupo/comunidade opressora ao imaginar-se ele próprio objecto dos mecanismos de opressão desencadeados pelo grupo a que pertence: uma variante da ideia: "E se, de repente, eles se rebelassem e as nossas posições relativas bruscamente se invertessem, passando o opressor a oprimido e o oprimido a opressor?
É essa, no fundo, a meu ver, a lição de filmes como "Poltergeist"E, se as almas, espíritos ou mais strindberguianamente os espectros dos povos que exterminámos viessem pedir-nos contas pelo extermínio.
Uma coisa que me parece especialmente interessante é a crítica implícita feita à vulgaridade do American way de que a televisão aparece como símbolo máximo e referência electiva da mediocridade de uma classe média amodorrada e insensível, preocupada apenas com o conforto físico e com o sucesso do profissional ao económico-financeiro--porta preferencial para a entrada dos fantasmas veículos da némesis temida. No artigo atrás citado Andrew Gordon fala, referindo-se precisamente a "Poltergeist" na imagem reconfortante da recomposição da ordem e da harmionia familiares obtida sob a égide da Mãe. Não será necessária grande "ginástica argumentativa" para ver a questão posta em termos mais latos envolvendo a reciomposição simbólica de um outro universo cultu[r]al-familiar: o que pode estabelecer-se entre os povos primitivos, os índios, e os que vieram apoderar-se dos respectivos territórios de caça. A Mãe seria neste quadro a própria terra, o país, o útero onde se produziria o nascimento de uma pacificação simbólica, obtida a partir da expiação da família escolhida para ser assombrada...
O que eu penso, em suma, é que o terror como «genre» narrativo possui à semelhança do domínio dos sonhos para Freud, o que poderíamos chamar um conteúdo patente e um outro latencial, sendo que a função ficcional do primeiro é a de acordar os fantasmas que erram no inconsciente cultu[r]al colectivo. É este mecanismo que faz com que nos encontremos todos como sociedade no mesmo parasdigma de de terror-operando como eco reconhecível de um imaginário cultu[r]al e mental comum e que ele, terror, opere perfeitamente em todos nós.  
Sobretudo se a este tipo de motivo civilizacional, juntarmos os fantasmas de natureza sexual que igualmente nos assombram, como cultura---algo que fica, aliás, muito claro num certo paradigma de filme "de terror" envolvendo adolescentes sexualmente tão activos quanto livres das inibições que marcam de forma tão estável e consistente quanto tópica, a  sexualidade "geralmente permitida" e chamemos-lhe: "séria"... 



[1] Vide Gordon, Andrew "Divorce American Style" in "Literature and Psychoanalysis, Proceedings of the Eighth International Conference on Literature and Psychoanalysis, Londres, Julho 1991, edited by Frederico Pereira and published by Instituto Superior de Psicvllogia Aplicada, Lisboa, 1991  ]

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