Zola e as suas obsessões biológicas deterministas revisto por um dos maiores realizadores de todos os tempos.
O alemão Lang [como o inglês Hitchcock por mais de uma vez], expatriados ambos, recorre aqui ao combóio que é o não-lugar e a referência máxima "clássica" ou uma das referências clássicas máximas de in-fixidez. O combóio como Graham Greene [de quem Lang adaptou, aliás, ao Cinema o referencial "Ministry Of Fear"]: Greene, dizia, num dos seus romances-entertainment mais interessantes, "Orient Express" descobriu, é o não lugar por excelência na medida em que é todos os lugares sem ser realmente nenhum. O combóio, por outro lado, permitindo ao indivíduo deslocar-se pelos seus próprios meios, cria nele e em nós, espectadores [decididamente, não gosto demasiado deste termo!] a ilusão de uma autonomia que, na realidade se encontra rigidamente limitada como está pela "vontade" do próprio meio de transporte que é o quwee efectivamente prevalece.
Há por outro lado, uma componente reconhecivelmente claustrofóbica no combóio que sobretudo Hitchcok em "The Lady Vanishes" até em "The Thirty-Nine Steps" ou especialmente no fabuloso "North By Northwest" explora magistralmente.
Numa obra dedicada a Lang, da co-autoria de Frida Grafe, Enno Patalas Hans Helmut Prinzler refere-se o não-realismo de Lang. Ora, eu sempre acreditei que uma forte aversão à realidade é partilhada pelo Cinema de Hitch que atinge, em meu entender culminâncias autenticamente kafkianas no já citado "North By Northwest" onde Hitchcock usa uma paisagem inquietantemente lunar que parece saída de Beckett, do BEckett de "En Attendant Godot", uma autêntica "wasteland", como diria T. S. Elliott para localizar a cena icónica do avião perseguindo Cary Grant.
Isso a juntar à sugestão clautrofobicamente in-fixa do combóio onde Roger O. ["O" for "nothing"...] Thornhill/Kaplan leva a cabo parte significativa da angustiada/angustiante pesquisa identitária que é, tal como eu o vejo, o tema real do filme.
No filme de Lang, o combóio onde se dá o crime e por meio do qual toda a narrativa muda constantemente de lugar, sendo que cerrtos planos dos carris contêm, mais ou menos claramente, uma impressiva sugestão de deriva para o infinito ou para o Nada, para o desconhecido, em todo o caso, para o que está para além do alcance dos sentidos e, por conseguinte, figurativamente da vontade humana e da sua capacidade de controlar o próprio real.
Isto, embora Lang evite inteligentemente o que comecei por chamar as obsessões conceptuais deterministas do naturalismo de Zola para quem o indivíduo mais do que existencialmente impotente perante os mecanismos de controlo do real como sucede em Sartre, Beckett ou Kafka mas refém de pulsões hereditárias autenticamente "de escola" e "de compêndio"...
Em Lang para quem o poder possui sempre algo de cruel, diante e sinistro e anda por isso quase sempre associado às mais díspares formas de cega violência ["O Testamento do do Doutor Mabuse", "Espiões" ou "M..." o que nos surge é a tragédia de um bruto [Broderick Crawford/'Carl Buckley', um actor e uma personagem com claras analogias com a de Paul Douglas em "Clash By Night"]; um bruto que, traído e incapaz de agir de forma racional e civilizada, desencadeia sobre a mulher [Gloria Grahame/'Vicky Buckley'] toda a cega fúria que nele existe em potência e até se adivinha nas feições dos actores que interpretam as personagens respectivas, Crawford e Douglas.
Em "Human Desires", o extraordinário narrador e comunicador de sugestões que é Lang constrói cokm a ajuda de uma Gloria Grahame inteligentíssima , de um Crawford convincentemente abrutalhado e de um Glen Ford seguríssimo, mais um objecto narrativo partricularmente envolvente que, diferentemente do romance que o inspirou, o clássico "La Bête Humaine" de Zola já antes filmado por Renoir com Gabin e Simone Simon pode ser visto e sentido por si mesmo e não sobretudo como ilustração e instrumento expositivo de uma tese mais ou menos teórica, aliás, discutível e hoje-por-hoje filosófica senão científica e objectivamente ultrapassada.
Uma obra que, como a maioria das de HItchcock pode ser apreciada por todo o tipo de públicos do menos exigente ao mais criticamente "cinéfilo".

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