quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"«Mishima» de Paul Schrader [1985]"


Um filme para quantos têm a paixão da mise-en-scène ou, pelo menos, para os que por ela se interessam.
Não que "Mishima" seja apenas, nem sequer sobretudo [longe disso!] a "forma de um filme" e a sua beleza!...
De facto, mesmo sendo a forma do filme algo de excepcionalmente estimulante e até aqui-e-ali, francamente deslumbrante, ele funciona, sobretudo, como a crónica de um desajustamento pessoal verdadeiramente dilacerante relativamente à realidade, ou se assim preferirmos dizer, o retrato não menos angustiado e angustiante de uma crise no "rapport" entre essa mesma realidade e as respectivas representações ou o conhecimento possível de obter a partir das mesmas 
A mim, pessoalmente, parece-me impossível não reportar o "caso" de Mishima ao do "nosso" Fernando Pessoa.
No filme de Schrader, a tragédia do protagonista consiste na incapacidade de gerir o seu rapport pessoal com o real, preferindo-lhe o convívio com formas imperfeitas ou ecos desse mesmo real como a Arte onde Mishima ritualiza um projecto de transformação que nunca logra que ultrapasse o plano do simbólico e precisamente do ritual.
Quando se dá conta da falência desse caminho ou desse projecto de "ritualização" ou "simbolicização" da acção, Mishima envereda por um outro de auto-aniquilação e de destruição ou "castigo" de uma realidade demasiado eluisiva e fugidia, resistente aos seus esforços para controlar o respectivo funcionamento.
Como num título conhecido, julgo que de Manuel de Lima, a história de Mishima é, não um romance mas  "uma vida numa cabeça"... 
O fascismo representa, afinal, como todos sabemos, a incapacidade de a consciência individual como a colectiva se afastarem criticamente do real, dele produzindo representações efectivamente operativas e fiáveis que substanciam a emergência da "cultura" à qual o fascismo precisamente porque não consegue entender o funcionamento da realidade, prefere a "acção" pura como sucedâneo ou mesmo forma limite de "conhecimento".

Ainda quando a acção configura um "viva la muerte!" que é também uma não já exclusivamente "simbólica" nem simplesmente ritual apenas "execução cerimonial da realidade" "com o Eu em crise lá dentro", numa espécie de "bodas de sangue" onde alguma paz parece finalmente ser possível.   

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