quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Questões de Tradução: «O Homem Que Via Passar Os Comboios» de Harold French [1951] ]

Uma das questões mais frequentemente susceptíveis de serem levantadas a propósito dos filmes respeita à tradução, desde logo dos respectivos títulos.
É verdade que é, por vezes muito difícil reconstituir numa língua estranha à do original, determinadas expressões que funcionando perfeitamente, "fechando idealmente em si", de forma quase ideogramática, todo um sentido objerctiva [e realmente!] indissociável da respectiva formulação.
Traduzir, por exemplo, literalmente "Sois Belle et Tait-toi" [1858], como fizeram os exibidores norte-americanos no caso do filme de Marc Allégret por Be Beautiful But Shut Up não é seguramente a melhor maneira de transmitir a ideia que o cliché francês contém. Refiro-me ao significado subliminar, ao conteúdo latente da expressão, transmitindo a ideia de "Não faças ondas!" "Contenta-te mas é com o que tens!" et al.
Nesse sentido foram incontestavelmente mais felizes ou mais prudentes e textualmente sensíveis os exibidores britânicos que titularam a película como Blonde for Danger um título que não reproduzindo literalmente o original não cai na armadilha que o escesso de literalidade com frequência implica.
Não é menos verdade quer há títulos que traduzidos à letram, "caem" por completo.
Um problema dessa natureza pôs-se ao signatário, por ocasião da elaboração da versão portuguesa do texto beckettiano intitulado , na versão inglesa do próprio Beckett, "Play", um título muito beckettianamente ambíguo que joga com a multiplicidade de ecos sémicos reconhecíveis no vocábulo inglês, aplicado, como é sabido, a registos como o de "peça teatral" mas também de "jogo".
Aqui, a solução que ao tradutor pareceu mais escorreita foi a de recorrer à versão francesa do texto, também ela de Beckett que na língua de Ronsard e Molière a titulou "Comédie".
Foi, pois, com o título de "Comédia" que a peça foi encenada por João Mota, na Comuna.
Pareceu ao signatário ter-se, desse modo, evitado o demasiado "liso", excessivamente flat" e muito redutor "Peça" que resultaria da tradução literal do texto inglês.
É este tipo de escrúpulo que o signatário impunha que tivessem em todos os casos presente os seus alunos de Técnicas de Tradução, insistindo que a "correcção" de uma versão se afere por critérios que, se assim se quiser mais ou menos figuradamente dizer, relevam incomparavelmente mais da arte do que da ciência. Do que de uma espécie de exactidão aritmética transposta para  plano sémico e semântico.
Verter em português, o inglês "cop" ou o francês "flic" por "chui", pode estar "mecanicamente correcto" e em simultâneo, efectivamente errado, de resto, como tantas vezes acontece quer na tradução de livros, quer na de filmes.
Porque o uso da informalidade dos termos originais não coincide com a apesar de tudo maior formalidade da utilização de um certo calão, na nossa língua.
Uma proposta que o signatário apresentou em tempos no âmbito do respectivo estágio pedagógico envolvia o que poderíamos designar por um reajustamento educado das noções de certo e errado que o desejável embora nem sempre esclarecido abandono de um paradigma quase "metafísico" e autoritário de correcção e suposta "pureza" idiomática  exigia.
No âmbito desse projecto, aliás, por mais de uma razão não concretizado, citava-se o caso da língua basca que, obrigada pelo franquismo a um estatuto de prolongada quasi-clandestinidade, acabaria por ver estiolar as respectivas potencialidades sémicas, forçada a uma não evolução natural que lhe tivesse permitido relacionar-se dialecticamente com a própria evolução das formas do real onde ela deveria em condições normais integrar-se
Quer dizer: o idioma basco terá permanecido tecnicamente "puro" mas incapaz de perceber a realidade em seu redor, designadamente a tecnológica com o seu aporte contínuo de vocábulos e expressões estrangeiras [os anatemizados "galicismos" e "angllicismos" que a ideia de correcção tradicional queria a todo o custo ver banidos, como se, se fenómenos de exclusão desse tipo tivessem existido noutras épocas, tivesse podido formar-se um idioma português ou francês ou castelhano ou catalão ou romeno...
Se "Nos ancêtres les Latins" tivessem partilhado e institucionalmente imposto, como fez um certo lexicalismo e gramaticismo autoritário dos linguistas portugueses de "outros tempos",  as concepções linguisticamente xenófobas e imobilistas destes, nunca teria existido um português para se falar "correctamente" pela simples razão de que estaríamos todos ainda hoje a falar latim se não estivésemos a falar para aí indo-europeu ou talvez sânscrito...
AS línguas, uma vez formadas por natural e "educada" des-construção de matrizes anteriores, passam a possuir uma identidade e uma sensibilidade próprias cuja expressão exterior permite idealmente medir com verdadeiro rigor a respectiva correcção.
"Traduzir", por exemplo, "Soldier Blue" por "O Soldado Azul" pode, volto a dizer, estar mecanicamente correcto sem estar , como atrás dizia, efectivamente tal.
Ou seja: a ruptura da sintaxe "correcta" inglesa [que ditaria o recurso à expressão "blue soldier"] possui significado em si mesma, um significado que aponta para ideias como a de "soldadinho de chumbo azul", uma ideia que o desenvolvimento do filme de Nelson [é dele que falo] aliás, ilustra e confirma por inteiro.
Sendo que, por isso, a tradução mais ou menos mecânica do original, deixa fugir um sentido importantíssimo--de facto, crucial--para a compreensão perfeita da intriga da película assim como do problema ou problemas que ela levanta.
Recordei-me destas considerações revendo recentemente uma adaptação cinematográfica da obra "L'Homme Qui Voyait Passer Les Trains" de Geoges Simenon, dirigida em 1952 por Harold French, com Claude Rains e Marta Toren, versão que se chamou "The Man Who Watched The Trains Go by". O filme passou em tempos na RTP e é essa versão desatradamente  intitulada "O Homem que Via os Comboios Passar"  que possuo agora regravada em DVD e que revi.
Sucede que do romance original existem na nossa língua diversas traduções todas elas intituladas "O Homem que Via Passar os Comboios"
 Na realidade "ver os comboios passar" tem uma sintaxe que sugere em meu entender pelo menos, passividade senão mesmo desinteresse pela passagem dos mesmos o que está longe de ser o caso do protagonista, o qual, exactamente ao contrário, vê com um interesse e um desejo muito particulares pelo trânsito dos comboios que circulam muito parto do seu local de trabalho.





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