sábado, 30 de julho de 2011



Um período da História que positivamente me fascina é que medeia entre 1918 e a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha. Releio os Mann, Musil e o próprio Kafka com a frequência possível.
E deslumbro-me com idêntica regularidade perante o cinema alemão dos anos 20. Impressiona-me a percepção que ele tem da decadência, a pulsão decadentista que da desintegração moral da sociedade alemã do período que antecede a ascenção do nazismo [e, no fundo, a explica!] têm  cineastas como Pabst, Lang [o cronista da crueldade e mesmo da cega brutalidade, [até quando consegue ser tão obviamente reaccionário como Lang é em "Metropolis", realizado sobre argumento da mulher, Thea von Harbou, membro do partido nazi] do poder, Leni Riefenstahl [próxima de Hitler, cineasta que glorificou o nazismo de um modo que acentua objectivamente o que nele há de cegamente massificador e desumanizador] ou Josef von Sternberg, cujo [hoje  clássico] "Der Blaue Engel", é a crónica de uma leviandade [o protagonista ostenta o nome significativo de Professor "Unrath", "insensato"]  uma decadência tão angustiante e penosa quanto irregressível, como o triunfo de Hitler veio provar assim como da intolerância geral para com as fraquezas humanas, um tema que é comum a "Der Letzte Mann" de Murnau.

É um filme "que dói", ainda hoje, como sucede, aliás, com o já citado  "Der Letzte Mann" de Murnauum filme-tragédia, no sentido aristoteliano de despertar piedade e nojo. 

"Die Büchse der Pandora/Lulu" de Pabst [1929]

Fotograma do filme de Pabst [Louise Brooks e Rodrigo Quast, um quasi-Doppelgänger de Hermann Göring]

"Louise Brooks (24 de Novembro, 1906 – 8 de Agosto, 1985,"

                                       


Hoje foi dia de regravar "Die Büchse der Pandora" em DVD de 1929, dirigido por Pabst.
É para mim, juntamente com algyns outros filmes da época e não só, obras como "Aurora" ou "der Letzte Mann" de Murnau ou ainda "M..." de Lang, definitivamente um dos meus filmes "de cabeceira".
Apesar da sua evidente e por vezes gritante misoginia, o filme de Pabst constitui um objecto narrativo inesquecível visualmente espantoso, em larga medida devido à figura realmente fascinante, hipnótica, de Louise Brooks, uma antiga dançarina norte-americana tornada actriz e que destilava, de facto, sensualidade em cada gesto ou olhar--ela que foi uma das primeiras e mais impressivas "sex goddeses" do cinema.

O filme de Pabst, baseado no texto dramático de Wedekind é uma obra francamente moralista, constituindo, num certo sentido, uma espécie de anti-Pigmalião e de discreta, subtil variação em torno do tema de Fausto, a que nem falta um demónio omnipresente na figura do suposto pai de Lulu papel desempenhado pelo actor Carl Goetz.. 
Embora, durante o julgamento da protagonista, pela boca da ambíguaa figura de 'Geschwitz' [Alice Roberts], surja no drama uma refrência ao "fatalismo económico e social" de que todos aqueles destroços humanos são, afinal, vítimas, a perspectiva de Pabst é, como disse, basicamente moralista e misógina, fazendo encarnar na Mulher [Salomé, Dalila, Maria Madalena] numa acepção que tem muito de topicamente misgino e bíblico o próprio Mal.

A "caixa de Pandora" é aberta quando o Dr. Schön decide manter com Lulu uma relação "pecaminosa" que o conduzirá, aliás, à morte e à perda[à "!queda"] do filho e da própria  Lulu, uma prodigiosa Louise Brooks sem a qual "Die Büchse der Pandora" não seria, sem dúvida, a espantosa obra que, mau grado tudo quanto disse, permanece ainda hoje.  

"«Wild Rovers» de Blake Edwards [1971"] {Reblogado de "O Quisto Didáctico"]

É mais um exemplo de "estória" de amor entre dois homens tão comum no "western" este filme que o TCM passou recentemente.
É verdade que, enquanto filme, não acrescenta coisa alguma ao "western" crepuscular e decadentista de Peckinpah ["Ride the High Country", por exemplo] um dos grandes nomes dessa fase final de auto-reflexão sobre o género que antecedeu o respectivo e já muito operático renascimento europeu, sobretudo, italiano que a obra de Peckinpah, de resto e como é sabido, antecipa.

O filme de Edwards vale, principalmente, pelo trabalho e pelo rosto de um William Holden envelhecido e por esse motivo tão 'de época' do "golpe" falhado envolvendo, de unm modo ou de outro, uma certa céptica desmontagem do "Sonho americano", algo que, na literatura atinge o estatuto máximo com F.S. Fitzgerald e, entre outros, os seus "The Great Gatsby" e "Tender Is The Night".

'Ross Bodine' [W. Holden] e 'Frank Post' [Ryan O'Neill] são uma espécie de 'Matt Marriott' e 'Pólvora', conhecidas personagens da B.D., "rovers" "wild" como tudo que sonham possuir um rancho para o que decidem assaltar um banco.

Em fuga, são como Butch Cassidy e o Sundance Kid de George Roy Hill perseguidos e, finalmente, alcançados, gorando-se, por fim, à beira de ser atingido, o objectivo do assalto, numa trama que faz também pensar, por exemplo, em "The Killing" de Kubrick ou "Rififi" de Dassin ou mesmo numa paráfrase da afirmação de Malraux no prefácio da edição francesa de "Sanctuary" de Faulkner de que "les détectives n'existent pas, Toute activité policiaire se basant sur la délation pas sur le génie d'un détective «iluminé»". Parafraseando a ideia poderia dizer-se o mesmo do herói: "Les héros ça n'existe pas. Toute heroïcité se base sur la disposition purement circonstencielle et même frquement arbitraire, gratuite de la realité et specifiquement de l'histoire, et individuelle et colective".

"Wild Rovers" é um filme amargo e cinematograficamente interessante, bem contado mas, em caso algum, inesquecível. Dele fica-nos, diria eu, sobretudo a recordação de dois simpáticos "losers" que Edwards acompanha e humaniza tal como, nada gratuitamente, Penn faz com Bonnie Parker e Clyde Barrow, no filme homónimo, uma obra incomparavelmente mais brilhante do que estes "Rovers" e até, em mais de um sentido, definitiva.

O filme de Edwards fala-nos da incapacidade final de a acção humana determinar autonomamente o curso da realidade, sucedendo que há, pelo contrário, todo o peso de um conjunto de intervenções mais ou menos... "espontâneas" daquilo a que poderíamos com alguma suponho que admissível propriedade, chamar a «máquina da realidade» que se impõem e condicionam essa mesma acção humana.

É, neste sentido, um filme profundamente amargo e pessimista, uma espécie de reflexão mais ou menos "filosófica" sobre a realidade e sobre, como disse, os limites da acção humana no condicionamento e na transformação da História.

A partir daqui, John Wayne [o Wayne de "Stagecoach", "Rio Bravo" ou mesmo "A Desaparecida"] deixa definitivamente de ter o papel principal e referencial na mitologia do "western" e cineastas como Ford ou Hawks, extraordinários contadores de "estórias", grandes poetas épicos do cinema perdem actualidade e estão condenados a tornar-se "meros" "clássicos".

O universo do "western" antes de se converter em ópera sobretudo com com Leone, passa a ser dominado pelo já citado Peckinpah, que faz, acima de tudo, a crónica prática da morte do género e das suas referências tópicas, algo a que, aliás, o próprio "Duke" Wayne se verá compelido a fornecer um rosto, numa singular "conversão" que o levará do já citado "Rio Bravo" [a sua obra máxima, em meu entender], a "The Shootist" de Siegel quando o cancro contraído durante as filmagens de "O Conquistador" e a morte próxima do actor se converteram em script e, em seguida, em filme.
O filme de Edwards, um dos seus filmes "sérios" inclui, no elenco, como disse, a estrela do mega--sucesso "Love Story", um Ryan O'Neill muito jovem e, à época, por causa deste último filme, muito popular e um solidíssimo Karl Malden com um papel todavia menor, além de Holden, cuja máscara impressiva ajuda a potenciar o que o filme possui de profundamente amargo e desencantado: a impressão de fracasso e de fragilidade e mesmo de radical in-utilidade dos desígnios humanos que perpassa por todo o filme, algo que, com raríssimas excepções [algum cinema de Ford fornece exemplos cinematograficamente imorredouros] é raro figurar no motivário típico do "western" clássico mas se tornaria, e não por acaso, comum nas décadas de '60 e '70.
De facto, num certo sentido, é exactamente isso que o distingue de outros "westerns" anteriores e faz dele mesmo, uma obra já do pós-"western": essa desfixação nuclear dos motivos do "western" desde logo, do papel determinante do herói mas também da recentração da acção dramática em figuras, de um modo ou de outro marginais, [os ladrões de bancos em "Bonnie & Clyde" de Penn ou, de algum modo, os índios em "Soldier Blue", neste caso seguindo uma linha de revisão que se inicia com "Buffalo Bill" de William Wellman, com Joel McCrea que John Ford retoma com o seu reconhecido génio para a construção de personagens em "Fort Apache".
Aqui, na película de Edwards os "heróis" fracassam rotundamente e quanto fazem define-se, na realidade, em última instância, pela mais completa vanidade-inutilidade.

É o começo da idade adulta do cinema pop, a era em que a História entra decididamente na ficção ecoando a emergência e triunfo dos nacionalismos anti-coloniais e anti-imperiais por todo o mundo e o motivário tradicional é consistentemente "revisto", nomeadamente no que resperita à representação de heróis e vilões.

"I Am Legend" [Reblogado de "O Quisto Didáctico"]

                     
"I Am Legend", adaptação cinematográfica de uma novela de Richard Matheson, uma alegoria da solidão e da hostilidade urbanas modernas.



Estou correntemente a escrever um texto onde me debruço sobre o que entendo poder ser um novo 'genre' cinematográfico a que chamei "caopic" ou seja, uma mistura de "epic" e de "caos". Trata-se a meu ver, de um tipo de narrativa à clef que utiliza formas aparentemente "inocentes" de quialquer sentido profundo ou conteúdo latente", como diria Freud, para além daquele que é sde forma óbvia o respectivo conteúdo patente.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Leopard Man" de Jacques Tourneur [reblogado de "O Quisto DIdáctico]

No fim de semana sem Net ["courtesy of" Zon TV CAbo, quwe me vendeu um contrato de Net móvel num sítio onde não chega!...] ocupei-me a re/ver clássicos de cinema em DVD: De suma asentada: "Yellow Sky" de W. Wellman, uma espécie de "Johnnie Guitar" em potência, "Leopard Man" de Tourneur, "Birth of a Nation" de Grifith e, por fim" O Arrependido/"Out of the Past" de Tourneur.

Foi premeditadamente um fim de semana Tourneur.

Claro que "Birth of A Nation" é um clásssico absoluto, um monumento, repugnante como é e tudo---mas confesso que de todos, o meu preferido é o Tourneur com Robert Mitchum e Kirk Douglas, "Out Of The Past", um filme espantoso onde Tourneur capta muito bem uma certas atmosfera "negra", muito Raymond Chandler ou James Cain e lhe confere uma expressão plástico muito pessoal jogando magistralmente com a analogia noite/angústia, algo que desenvolve com irrecusávem maestria no cinematograficamente menos considerável "The Leopard Man", um filme onde Tourneur se revela algo convencional em termos de conteúdo latente: a luta do Bem contra o Mal mas inovador exaxctamente no modo como usa ss ferramentas do cinema, concretamente a iluminação, as sombras a fim de conferir expressão visual e especificamente plástica aos conceitos sobre os quaisios trabalha.


Não sendo um filme extraordinário, "Leopard Man" é um objecto cinematográfico interessante que faz lembrar Henry James e "The Turn Of the Screw" no sentido em que para sugerir o medo recorre sistematicamente ao vazio, neste caso, à sombra sobre a qual cada um é livre de projectar os seus próprios fantasmas e terrores pessoais, 'entrando' desse modo ssubtil, um pouco mais no próprio filme.


Muito mal apresentadinho, benza-o Zeus e como é de resto, habitual e típico da estação, apresentou a RTP Memória recentemente o "blockbuster" de Joseph L. Mankiewicz, "Cleópatra".
Trata-se de um filme que foi um colossal fracasso de bilheteuira e que, como muitos outros portugueses da minha geração, vi pela primeira vez, quando estreou entre nós, no falecido Monumental.
É também um dos mais 'odiados' filmes da História do cinema. Não será, excepto num sentido muito negativo, completamente oposto ao que pretendeu Walter Wanger, o produtor independente que colaborou na feitura da película [1], "a classic" ["a great motion picture to be seen not just onde year, but a classic to be seen by succeeding generations"] e "the greatest film ever". Não será [não é seguramente!] tão-pouco "Antony and Cleopatra" de Shakespeare ou "Caesar and Cleopatra "de Shaw mas julgo também, a avaliar pelo relato que Wanger dá da preparação para o filme que nunca pretendeu ser senão aquilo a que hoje chamaríamos talvez uma ópera pop essencialmente comercial baseada em topos culturalmente referenciais embora não necessariamente rigorosos em termos estritamente históricos.
O filme de Mankiewicz tem, com efeito, tudo pasra se tornar numa grande ópera popular com figuras e motivos que a tradição totrnou absolutamente referenciais e até emblemáticos e mesmo simbólicos, como convém a um libreto operático. Chamar-lhe "um dos piores filmes alguma vez realizados" representa, a meu ver, uma tremenda injustiça.
Sobretudo, tendo em conta que além do filme de Mankiewicz existe o "deslize" de Hawks que foi "Land of the Pharaos"e quase toda a pomposa filmografia "histórica" e bíblica" de Cecil B. de Mile, designadamente a famosíssima segunda versão d' "Os Dez Mandamentos", em meu entender, esse sim um dos cinematograficamente mais ignoráveis e até cinematograficamente mais desprezíveis filmes de sempre, uma "geringonça" narrativa sem personagens [bonecos de carne e osso substituem-nas com evidente vantagem para as audiências embasbacadas perante a habilidade dos truques, audiências essas que já conheciam aqueles ícones todos, de Moisés ao faraó, da Bíblia--facto que muito contribuiu em meu entender para o enorme sucesso pop do filme, em larga medida devido justamente a essa falsíssima impressão de inteligência que dá a banalidade engenhosamente disfarçada de obra de arte.
Em "Cleópatra" temos o shakespereano Richard Burton [segundo Wanger originalmente recusado com veemência pelos produtores] num papel que chegou a ser dado a Stephen Boyd, que ainda filmou algumas sequências com Peter Finch num 'César' que acabaria, ciomo se sabe, entregue a Rex Harrison, o sempre competente Rex Harrison [num papel onde Wanger "via" bem mais James Mason ou Laurence Olivier e os estúdios Cary Grant, Yul Brynner e Curt Jurgens] assim como alguns "secundários"de qualidade como o "hitchcockiano" Hume Cronyn.
Uma curiosidade histórica sem dúvida muito interessante é que o filme esteve para ser dirigido por Rouben Mamoulian e por Alfred Hitchcock, deixando nos muitos hitchcockianos pelo mundo fora, a dúvida de saber como seria a película dirigida pelo mestre de "Under Capricorn" ou "Jamaica Inn" , dois filmes "de época" realizados por Hitchcock.
Não é [longe disso!] o melhor filme alguma vez feito além de fazer pouca ou nenhuma justiça às mulheres, mau grado ser, como sublinhou sem adiantar qualquer outra necessária reflexão a apresentação do filme na RTP Memória, limitando-se a recordar que é uma mulher a fornecer o título e o eixo em torno do qual toda a história é suposto que gire. De facto, a ideia que o argumentista faz da Mulher é uma manifestamente negativa que está, porém, fortemente enraizada na rradição judaico-cristã: a da Mulher como referência e mesmo encarnação perversa do Mal da des-ordem, agindo na sombra onde tece as malhas de uma tragédia protagonizada pelos homens. É, um efeito, Lady Macbeth, de sucesso assegurado, astuciosamente assente numa Elisabeth Taylor que era à época o próprio rosto do escândalo [Wanger cita frequentemente a "epopeia" das exigências de Taylor em matéria de cabgeleireiro, o famoso Sidney Gilaroff que só a muito custo conseguiu vencer a resistência dos cabeleireiros britânicos onde o filme começou a ser filmado e figurar na ficha técnica da película].
Pouco antes casada com o recentemente desaparecido Eddie Fisher, o qual, como é sabido deixara a mulher Debbie Reynolds, amiga de Taylor, mas todo o oposto da imago pública "escandalosa" e fortemente erotizada desta última, para casar com a heroína de "A Place in the Sun" .
"Cleópatra" joga com os fantasmas cultu[r]ais sexuais de um público essencialmente puritano , puritanamente misógino e em geral, pouco dado a grandes reflexões em matéria histórica e/ou antropológica? Com certeza!
Um evidente oportunismo caracteriza, de facto, indiscutivelmente o ideário implícito da películas onde se vê mal Audrey Hepburn a fazer de Cleópatra, hipótese que, sempre segundo Wanger, chegou a pôr-se com elevado grau de probabilidade, ao lado das bem mais prováveis Joan Collins, Suzy Parker, ou até Gina Lollobrida [que havia feito "Solomon and Sheba" com Yul Brynner] e Sophia Loren.
Recuso-me, todavia, a incluir "Cleópatra" entre os não-sei-quantos piores, como já foi, aliás, abundantemente feito: é, com efeito, um filme "histórico" onde, ao contrário de tantos outros, o diálogo e a respectiva interpretação não constituem um mero ornamento ou excrescência.
É tão somente, diria eu, um filme para ser re/visto com espírito crítico e cautelas intelectuais e artísticas de todo o tipo, semelhantes às que levaram o próprio Laurence Oliviar, muito pretendido pelos produtores, em especial Spyros Skouras, a recusar misturar o seu nome ao filme.É preciso, porém, recordar que um escritor da estirpe de Lawrence Durrell não hesitou em aceitar colaborar no script.

Trata-se, em suma de um filme que se "deixa ver", desde que o abordemos, repito, como uma audiência mais culta abordaria uma ópera ou, em alternativa, de um ponto de vista muito mais antropológico do que propriamente cinematográfico--o que reforça, aliás, quero crer, o interesse em torno da ideia de saber como resultaria a pelíccula dirigida por um realizador da estirpe de Hitchcock.

"O Olympia dos bons velhos tempos"

"Marie Windsor [1919-2000]"

"The Narrow Margin" de Richard Fleischer [incompl.]


Estive a regravar em DVD "The Narrow Margin" um filme de Richard Fleischer que passou na RTP há anos e que tinha em video. Era quando a RTP passava cinema...
Os clássicos mesmo os de série B--- a melhor escola de cinema possível...
O filme é um série B interessante sem ser extraordinário.
Pessoalmente gostaria muito de saber o que um génio como Hitchcock faria com aquele argumento que, aqui e ali faz pensar em "North By Northwest".
Hitchcock faria seguramente algo que Fleischer se "esqueceu" [desdenhou ou ou não foi capaz] de fazer: desenhar meticulosamente cada personagem, centrando nelas todo o suspense.
Imagino que faria do polícia [um Charles MacGraw hard boiled vagamente sósia de Kirk Douglas] um ser bem mais vulnerável, um Scotty com as suas vertigens ou um Cary Grant bombardadeado com insecticida a arrastar-se atrerrorizado no meio de um milheiral ou fugindo à frente de um avião...
O génio de Hitch residia, a meu ver, não no suspense pelo suspense mas no modo como ele se reportava invariavelmente a alguém, ao drama pessoal  de alguém cuidadosamente desenhado em termos psicológicos.
Também as relações entre as personagens passavam por um tratamento que subtilizava e valorizava todo o desenvolvimento da acção, criando Hitchcock alguns pares "ideais" como o que ary Grant e Grace Kelly constituíram em "To Catch A Thief" ou esse de muitos o que protagonizam James Stewart e Kim Novak [a quem o próprio Hitch preferia Vera Miles para o papel] em "Vertigo"
Ou ainda aquele que Paul Newman com quem Hitch teve uma divergência famosa e Julie Andrews cujo trabalho pessoalmente e apesar das reservas do realizador que, como digo, já as tivera relativamente a Kim Novak, me convence perfeitamente em "Torn Curtain".
Voltando, porém, a "The Narrow Margin": no recurso ao assentar de todo o filme na acção, nos expedientes de argumento e não nas personagens, revela-se claramente um série B. "Asseado" e sóbrio, sempre digno, mas série B. Do tipo que, com as obras de Michael Curtiz, Raoul Walsh ou até Anthony Mann fez as delícias da plateia do velho e saudoso "Olympia" pré-La Féria , onde, aliás, à época, eu próprio sempre tão gostosamente  me incluí
A verdade  é que a clientela do Olympia não se distinguia à época propriamente pelo seu apego a grandes subtilezas de natureza psicológica preferindo-lhes claramente a acção enquanto oposto do que ela designaava depreciativamente pelos filmes "de enredo".
Ora, "The Narrow Margin", que não sei se alguma vez passou no velho cinema das portas de Sto. Antão é filme para proporcionar  o tão atreciado denoument capazz de empolgar plateias como a do Olympia, mesmo quando soam claramente a "far fetched" e a a forçado.
Seja como for, Charles MacGraw dá excelente conta de si como Kirk Douglas "dos pobres", enquanto a bela e sensual Marie Windsor [1818-2000] defende com eficiência um papel de [suposta] gangster moll que, afinal, é polícia!... 
Fleischer, porém, mais interessado nos aspectos chamemos-lhes "prátiocos" do filme, nos "efeitos especiais" narrativos, trabalha sem muito empenhamento a tãio avinagrada quanto singular relação entre ambos sem, apesar disso, conseguir fazer do romance do primeiro com a loira Jacqueline White o que quer que seja que o aproxime sequer do que Cary Grant e Eva Marie Saint mantêm sob a tutela de A. Hitchcock em "North By Northwest" e que constitui um dos apoios narrativos determinantes da obra-prima que o filme é.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"«North By Northwest» de ALfred Hitchcockt"

O filme de Hitchcock, aquele onde ele casa prodigiosamente Kafka e Lubitsch numa obra depuradíssima e perfeita cujas raízes remontam ao "arquelógico" "The Lady Vanishes".

"«If»...de Lindsay Anderson, um soberbo e pré-kubrickeano rertrato da «angry young generation» dos anos '60 e '70 "

        
Implacável sátira e repositório à sociedade britânica dos anos '60, precursor do fabuloso "A Clockwork Orange" de Kubrick, o filme do angry young man Lindsay Anderson não deixa pedra sobre pedra da Britannia "jingoista" e "kiplinguiana" [Kipling que todo o filme cita às avessas, logo a começar no título] contra a qual se rebelaram Osborne no seu ainda hoje referencialíssimo "Look Back In Anger", Doris Lesing [à época, uma enérgica "angry young person" que viria, aliás, tal como Anderson a ser posteriormente absorvida pelo mainstream cultu[r]al e acabaria Prémio Nobel, Kenneth Tynnan ou Lindsay Anderion, o realizador deste explosivo e vitriólico "If..."
A fim de desconstruir a violência institucional do "British way" mais ferozmente tradicionalista, Anderson rercorre ao bizarro universo das public schools inglesas, onde a opressão e a violência  se institucionalizaram de tal modo que assumiram a forma de tradição implicitamente aceite, quando não mesmo de  normas e regulamentos de natureza literalmente medieval, com o famigerado "caning" à cabeça.
Todo o filme gira em torno da ideia, ainda hoje-por-hoje tragicamente actual, de como se fabrica a violência social e política nas sociedades modernas, um ponto que tem em comum com o seu já citado notabilíssimo sucessor saído da sempre estimulante e inspiradíssima câmara de Kubrick.
O filme, cujo elenco é liderado por um inquietante Malcolm MacDowell, fala de como o "sistema" põe nas ,mãos dos indivíduos não só os meios [o treino militar, as guerras de contra-insurreição colonialista com o Vietname como referencial máximo ] como inclusive os móbeis para a revolta que à época estala por muita da Europa ocidental, desde logo na Itália das Brigadas e na Alemanha da R.A.F.  
Pouco a pouco, o funcionamento normal desse mesmo fortemente verticalizado "sistema" vai semeando e meticulosamente alimentando ódios e ressentimentos de todo o tipo [aliás, como disse, devidamente institucionalizados] destruindo a dignidade das pessoas e impelindo-as à retaliação que gera a implosão do próprio "sistema". A revoltosa feminina que, no fim, colabora no massacre dos professores é uma referência a Patty Hurst, a filha do milionário norte-americano que se juntou a um à época muito falado Exército Simbiónico de Libertação que a havia raptado para exigir por ela resgate e que apareceu em revistas e jornais da época empunhando como a jovem sublevada do colégio uma metralhadora? 
Muito habilmente Anderson discorre sobre o enquistamento inclusive sexual de uma socieade fechada sobre si mesma, cultu[r] al e exiostencialmente sufocante e também sufocada.
Extremamente bem contado e interpretado, o filme é, sobretudo, um espírito e faz, mutatis mutandis, visto de hoje, irresistivelmente  pensar na ideia bergmaniana do "ovo da serpente".
É ainda hoje,em definitivo, um dos "filmes da minha vida". 
  

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Julie Harris..."

...uma actriz fabulosa qur foi como que engolida pela sombra projectada pelos mitos que com ela, mais de uma vez, contracenaram: James Dean em "East Of Eden" de Kazan ou Marlon Brando e Elisabeth Taylor em "Reflections In A Golden Eye" de Huston!


"A Arrebatadora Fotogenia..."

...de uma magnífica actriz: Custódia Gallego!

"Lady For a Day" de Frank Capra [1933]

Estive a re/ver "Lady For a Day", de Capra.
Devo dizer [ou confessar?...] que não sou, nem cinematográfica nem ideologicamente, "cliente" do realizador de "Lady For A Day".que sempre achei demasiado simplista e primário, visto de hoje, irremediavelmente obsoleto, na apologia que faz de uma América ideal, verdadeiramente de compêndio ou, se assim se preferir dizer, reportando-me já a esta última película, de conto de fadas..
Capra, pelos vistos, tinha do seu próprio filme uma ideia dferente tanto que o refez a cores, anos mais tarde,  com Glen Ford e Bette Davis.
Ainda que o cinema deste cineaste referencial me deixe em geral, como digo indiferente, não me é possível negar o que há de idealista e bem intencionado, de "simpático" nele.
Re7vendo o filme, dou comigo a pensar na famosa comédia portuguesa, toda ela assente no tipo de comédia de enganos em que se insere este "Lady For a Day", uma espécie de "Pigmalião" em versão conto de fadas.
Acontece que a semelhança em causa, tal como a vejo, é mais circunstancial que outra coisa. A comédia dita "portuguesa" ou "à portuguesa" é basicamente moralista e politicamente significada, nada inocente. Feita por homens do "regfime" para ela o que está, em última instância, em causa é a atitude paternalista do castigo a aplicar aos demasiado ambiciosos e "mal comportados" que não sabem "qual é o seu lugar na paternalista e idealmente  conformada [conformista] sociedade do salazarismo.
No filme de Capra,  a ideia é sublinhar o espírito de solidariedade e de iniciativa do "little people" e[um motivo caro ao realizador de "You Won't Take It With You" [uma película de que especialmente não gosto por nela se concentrar toda a visão simplista do realizador] e, no fim, do próprio sistema , do American way representado pelo "mayor" e pelo governador do estado de Nova Iorque.
Reconheça-se a habilidade com que o argumento contorna as dificuldades criadas pelo embuste imaginado por "Dude" e pelo seu gang, não recorrendo à solução "antipática" de expor aquele, revelando a verdade.
De facto, não são apenas o "mayor" e o governador que se juntam generosamente ao plano do gangster: o próprio Capra aceita magnanimamente fazer parte dos "conjurados", recusando a tentação moralista comum à politicamente nada inocente, repito, comédia 'de enganos' "à portuguesa".
Muito mais do que aproveitada por Lopes Ribeiro, no clássico "O Pai Tirano"ou por Cotinelli na não menos clássica "Canção" é por Perdigão Queiroga que ela vai ser surpreendentemente aproveitada em filmes interessantes ainda que injustamente em geral menos prezados como "Sonhar é Facil", um título que até pode ser irónico, tendo em conta a desconfiança com que a rigidamente "verticalizada" sociedade corporativa via a iniciativa popular e especificamente, os esboços de cooperativismo que teóricos como António Sérgio preconizavam como alternativa ao económica, políticasocial  e civicamente fechadíssimo sistema corporativo.
Para concluir, diria que, se "Sonhar É Fácil" sobreviveu, regra geral fora dos compêndios de História do Cinema português sobretudo como uma comédia, um filme "para rir", povoado de personagens pitorescas e de fácil adesão popular, defendidas por actores de eleição, alguns deles, com o excepcional António Silva à cabeça, este "Lady For a Day" sobreviveu, basicamente como o conto de fadas de expressamente  se fala no próprio filme.
Pretender ver em Capra um autor socialmente empenhado, num sentido preciso, configura, do meu ponto de vista, um excesso de "wishful thinking" a não ser na vaga medida em que subjacente ao cinema que ele faz existe uma glorificação evidente de uma América «lincolniana» que nunca verdadeiramente existiu, a não ser nos sonhos de uns quantos idealistas. 
Como o próprio Capra.  

  

terça-feira, 26 de julho de 2011

"«Beau Brummell» de Curtis Bernhardt""

...um filme que faz parte do meu imaginário. Estive ontem a re/ver algumas sequências no TCM mas nãso poude gravá-lo nem sequer vê-lo integralmente porque estive a gravar "The Last Tycoon", baseado no romamnce homónimo de F. Scott Fitzgerald., no TVC4.
O filme de Curtis Bernhardt não será uma obra-prima mas é visualmente sumptuoso e ideologicamente simpático mostrando um George Brummell/Stewart Granger irreverente capaz de fazer frente aos caprichos da realeza, representada por um sempre truculento e dramaticamente cintilante Peter Ustinov.
Granger que se celebrizou como espadachim em obras como "Scaramouche" de George Sidney ou "The Swordasman from Sienna" ou um interessantíssimo "The Prisoner of Zenda" de Richard Thorpe, baseado na obra homónima de Anthony Hope não era [longe disso!] um actor excepcional mas tinha uma presença imponente ]"imposing"] e um registo errroll-flynnesco e muito físico que, no género de filme que em geral interpretou, substituíaa quase credivelmente a qualidade dramática e técnica que não teria.
Hollywood sempre se apaixonou por actores ingleses dos quais fez muitas vezes [talvez como revivescência--e "vingança"--da antiga relação colonial] vilões temíveis. Foram os casos de Basil Rathbone, George Sanders e mais modernamente Anthony Hopkins. A alternativa à vilania era com frequência a sedução. Sanders, por exemplo era visto como um perigoso e dificilmente resistível sedutor. O casamento com a borbulhante Zsa Zsa Gabor ajudou a consolidar essa imagem a que a voz caracteristicamente velada e anasalada emprestava credibilidade adicional.   
Granger com as à época famosas cãs brancas era, sobretudo o sedutor: não me recorsdo de tê-lo visto fazer um único papel de "mau", como James Mason [o Rupert of Hentzau de "The Prisoner of Zenda" ou Sanders. 
Pessoalmente acredito que esta espécie de vingança [talvez] inconsciente contra o velha potência colonial atinge uma espécie de climax em "Silence of the Lamb" onde fala com acento britânico, o intelectual antropofágico, que é uma espécie de Sherlock Holmes malévolo e parasitário que se alimenta dos mortais comuns e pode, em tese, representar a relação que, do ponto de visata do americano médio, se encontra cultu[r]almente estabelecida entre a elite intelectual e o conjunto da sociedade "normal" que aquela coloniza e relativamente à qual opera sinbolicamente como o antigo colonizador.
Grasnger trepresentou o lasdo decididamente são, ainda que situando-se um pouco acima da "normalidade" desta relação entre a antiga potência colonial e o colonizado liberto da sua influência e do seu poder directo.   



"Custódia Gallego"

Uma actriz magnífica e uma mulher lindíssima que paga por não haver em Portugal uma indústria cinematográfica capaz de tirar todio o partido de ambas essas características

"Julianne Moore"

Uma beleza ap nível das grandes referências cimematográficas do star system e uma das actrizes de que pessoalmente mais gosto

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"Ellen Burstyn", a Actriz Principal de «Providence» de Resnais De que Falarei Aqui Muito Em Breve"

"O porquê do nome do blogue"

Concebi este espaço, onde pretendo ir inserindo as minhas ideias sobre os filmes`que for [re] vendo, como um tributo às minhas emoções de cinéfilo em início de carreia, quando [no abominável "Piolho" do Martim Mononiz ou no ainda mais abominável "Cinório" da General Roçadas] se podiam ver, no Lys, no Imperial, no Ideal, no Royal, no Terrasse [ligeiramente mais caro, 5$50] ou ainda no Jardim da Pedro Álvares Cabral dois filmes por cinco escudos.
Eram os familiares cinemas de "reprise" onde era uma festa para toda a família ir ao fim de semana. 
Os chamados "de estreia" eram, por óbvias razões de orçamento pessoal, "off limits" para a curta mesada [12$50] que recebia à época [não me lembro de ter alguma vez, sido "aumentado" a não ser quando entrei para a Faculdade].
E ainda havia os cerca de 3$00 para o maço de "Aviz" pequeno com o qual nos em geral rebuscadíssimos "foyers" de então [Revi há pouco o do falecido "Monumental", n' "Os Três da Vida Airada" me entretinha a queimar os pulmões juntamente com a hipótese diária do miserando bolo à poeta do Gil [Vicente ] vendido por mãos que tinham sem dúvida tanto de dignas e honestas como de duvidosas em matéria de higiene à pala das quasis apanhei mesmo icteerícia com um pastel de nata arqueológico, disfarçado com montes de um chantilly amanteigado encimado potr um triângilo de ananás que era ferozmente disputado pela rapaziada fascinada pela, para adolescentes,  "dificilmente resistível" tropical perspectiva do creme e do  já meio ressequido fruto.
É verdade que os cinemas de estreia estavam à época muito para além das limitadíssimas possibilidades da bolsa da maioria de nós mas, a dado passo, alguém me deu a conhecer a a partir daí incontornável "geral" do Politeama, uma espécie de anfiteatro de madeira situado por cima do 2º balcão.
ERa, em qualquer caso, um lugar de magias, o lado secreto e "clandestinio" do nobre e burguesíssimo cinema das Portas de Sto. Antão.
Ao frequentá-lo, tínhamos [melhot sdizendo: cultivávamos! cultivava-a eu, seguramente!] a deliciosa impressão de só nós conhecermos aquilo e assim que o filme passava especialmente para nós--um privilégio que devolvíamos num contínuo reforço de fidelidade ao espeço e, de um modo mais geral, ao próprio Cinema.
Vi lá a que para mim permanece a obra máxima de Howard Hawks, "Rio Bravo", assim como uma charge italiana com Renato Rascel e Walter Chiari, cujo título, lamento dizer, esqueci por completo.
Vi, também os atroadores "Canhões de Navarone" e uma série de comédias alemãs com O.W. Fischer e uma actriz que adorava até pela singularidade do nome: Caterina Valente.
Mas mais ainda do que esta, eu não perdia um filme da Marika Rökk, uma actriz de passado político duvidoso pelo modo como atravessou os anos de chumbo do nazismo.
Todas estas "amizades" e um acervo de memórias inesquecíveis constituem um patrrimónio emocional e afectivo cuja posse devo àa essa para mim, já mítica "geral" do Politeama, o "galinheiro", como havia quem lhe chamasse.
Para mim, era um local de culto, tanto como o 2º balcão do Império ou do Monumental e é com o pensamento no arrepio de prazer e de genuína reverência [eu que sou contra todas as formas dela] ao ouvir as inesquecíveis badaladas anunciando a abertura da cortina enquanto escalava a íngreme escadaria que me conduzia arfante ao céu!