sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"«Crime e Castigo» de Josef von Sternberg, 1935"

Mais um "Dostoievski cinematográfico", que estive a regavar hoje,  a juntar a "The Brothers Karamazov" de RIchard Brooks ou "Le Joueur" Jogador" de Autant-Lara com Gerard Philippe.
Pessoalmente, confesso que, apesar das reservas de alguma crítica portuguesa ainda durante a ditadura, não desgosto do primeiro em larga medida por causa do trabalho de Yul Brynner e Maria Schell. Nem Richard Basehart nem L. J. Cobb eram actores que eu apreciasse especialmente, embora ao primeiro reconheça uma certa qualidade dramática ainda que muitas vezes [e será o caso do filme de Brooks] sobre-explorada.
Em "Crime e Castigo" Von Sternberg, o "inventor de Marlene Dietrich", abalança-se a adaptar um dos mais densos e "complicados" romances de Dostoievski, uma obra "perigosa" pelas interpretação amoralistas mais ou menos... nietzscheanas, que dele foram sendo feitas, a começar pelo casal gay de "Rope" de Hitchcock. 
Sternberg, porém, tem o cuidado de sublinhar [seria mais exacto dizer: vulgarizar] o que em Dostoievski há de problema moral como aspecto fulcral do drama pessoal de Raskolnikoff, aspecto esse que se sobrepõe claramente às motivações de tipo policial e judicial.
O problema de Raskolnikoff, Sternberg  tem sempre o cuidado de sublinhar, não é, pois, a polícia nem o tribunal: Raskolnikoff já foi julgado e condenado:o tribunal e a prisão são para ele a sua consciência, negando, pois, o tipo de "tese sobremoral" e supremacista que começara por advogar.
Como convém a uma arte popular como o Cinema.
O filme é dos que se deixam ver, dele não permanecendo, contudo, após o respectivo visionamento, qualquer fragmento ou sequência particularmente inesquecíveis e muito menos "icónicos".
É, todavia, dos que não envergonham [ou enriquecem, também é verdade!] quem os vê ou fez assim como não fazem inteiro jus à obra que os inspirou. Peter Lorre, um actor mal aproveitado com frequência pelo cinema comercial norte-americano, "é" Raskolnikoff  pelo menos próximo do modo como eu próprio o imagino, i.e. uma figura torturada, complexa, de ressentido, um pouco ridículo sem deixar de ser inquietante quanto baste, como o "Homem" do "Sonho" desse outro famosíssimo texto dostoievskiano. Edward Arnold, no comissário, é apenas consistente e seguro, ele que foi especialmente truculento como Nero Wolfe, a famosa personagem de Rex Stout e o resto do elenco sem nenhuma qualidade especial não destoa, porém...

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