segunda-feira, 22 de agosto de 2011

John Wayne--a pessoa" [em construção]]

                               
Actor e, de algum modo, imago electivo da extrema-direita norte-americana, concedeu em 1971 uma entrevista à revista "Playboy" onde fala do estado do cinema americano assim comoo de diversos aspectos ligados à "questão racial"nos E.U.A...
Vale a pena reproduzir aqui algumas dessas declarações na circunstância produzidas para se ter uma ideia mais clara do homem por trás do "herói" assim como da realiddade política e cultu[r]al por trás da figura, leia-se da persona cinematográfica.

O cinema e a liberdade de criação segundo "Hondo Lane" e "Rooster Cogburn":
À pergunta: "Como vê o estado da indústria do cinema ["motion-picture business"] hoje?
Resposta:
"Fico feliz por já estar por cá muito mais tempo ["I'm glad I won't be around much longer"] e não ter, assim, de ver o que alguns fizeram dela.
Os homens que controlam os grandes estúdios são banqueiros e grandes financeiros com interesses duvidosos na bolsa ["stock manipulaters"]. Não conhecem nada da indústria cinematográficaAndam cá só pelo lucro ["They are in it for the buck"]. A única coisa que dizem é: "Caramba! Aquele filme com o "Não-sei-quantos" a correr todo nu pelo parque rendeu uma pipa de massa! Vamos fazer outro! Se é isso que «eles» querem, demos-lho!"    
Alguns desses tipos fazem-me lembrar prostitutas caras. Veja o caso da 20th Century-Fox! onde fazem coisas do tipo de "Myra Breckinridge". Por que é que esse salafrário ["son of a bitch"] do Darryl Zanuck não veste, de vez, uma camisa às riscas e deita mãos à tarefa de aprender a tocar piano? Assim já podia tocar onde lhe apetecesse, na casa
Por muito que eu não suportasse alguns dos tubarões de outros tempos--especialmente Harry Cohn--esees tipos  preocupavam-se seriamente com o futuro da sua indústria ["their business"]. Eram gente séria.
Houve um momento em em que se deram conta de que tinham feito de um filho da mãe de um gangster ["a goddamn gangster"] um herói, num filme policial qualquer e que isso representava um descrétito para o nosso país.
Então, esses tubarões aceitaram espontaneamente deixar de fazer filmes de gangsters. Não foi necessária qualquer censura externa. Eles próprios se sentiam responsáveis perante o público.
Os executivos de hoje, porém estão-se nas tintas na ânsia de chorudas receitas de bilheteira, pagam para que sejam produzidos filmes de sexo e fartam-se de produzir lixo. Exploram astuciosamente o facto de ninguém querer ser classificado de antiquado e snobe ["blue nose"].



Há-de, todavia, chegar o momento em que o público norte-americano vai dizer: "Vão para o diabo!" E quando isso acontecer, vamos ter censura em todos os estadose deixará de ser possívevl fazer um único filme  para adultos que valha realmente a pena ver e que seja aceitável para sder exibido a nível nacional.
Ouvindo Wayne falar da cupidez dos produtores, dos grandes investidores, apetece perguntar: "Em que mundo viveu, afinal, o actor toda a vida?"  
É característico que, para ele, o mal seja, não a violência em si mas o sexo. É uma visão conservadora e misógina típica do mundo por vezes escandalosamernte machista, vigilantista , trauliteira e direitista em que Wayne se movimenta. Cinematograficamente falando, ao menos.
O que ele faz nesse ponto em concreto é, no fundo, a condenação da maior parte da produção cinematográfica norte-americana de dentro dela de um número razoável dos seus próprios filmes, westerns e não só.
Para Wayne, a violência divide-se em boa e má; a que se substitui ao Direito, condena e executa no mesmo passo é, para ele, obviamente a boa. A que mata índios e os mete em reservas. A má é a que visa confrontar um mundo em que os índios nasceram pasra serem abatidos no cinema e o revólver dos múltiplos Rooster Cogburns substitui com vantagem os tribunais e os juízes honestos  e civilizados.    

A violência no Cinema:

Para Wayne, a função do cinema é obviamente a de corrigir não apenas os efeitos da realidade como a própria realidade:  "the one basic principle of our business--illusion. We're in the business of magic." [sublinhado meu]
Para ele, a violência deve ser nas suas próprias palavras "nullified" através de um cuidadoso tratamento de maquilhagem narrativa e visual que, de resto, reivindica para os "seus" filmes. "I believe humor nullifies violence".
O problema é que o "humor" não "nullifies" coisa alguma. Pelo contrário: cria o perigo de tornar a violência "interessante" por conseguinte, aceitável. Parace-me sintomático que o próprio Wayne se manifeste tão chocado com ela quando surge na forma com que emerge em filmes como "The Wild Bunch" de Peckinpah. Basta ler o que ele mesmo diz a propósito: "Como num filme, dirigidio por Henry Hathaway, em que havia um "duro" que enfiava a cabeça de outro tipo num barril cheio de água. Eu estava a assistir à filmagem e não gostei nem só um bocadinho daquilo. Então, pego num cabo de picareta, grito "Hey!" e dou com o cabo na cabeça do fulano. Este caíu de imediato sem fazer sangue. Toda a gente soltou uma sonora gargalhada pelo modo como eu fiz aquilo. É esse o meu tipo de violância".
De onde se conclui que o problema é a realidade. E a função do cineasta "discipliná-la". Dito de outro modo:Torná-la [alegadamente] suportável. Não a deixar "mostrar-se excessivamente indócil. Numa palavra: não a deixar mostrar-se."
Para Wayne uma marretada propinada co um cabo de picareta é aceitável e mesmo divertida, capaz de pôr toda a gente a rir, desde que não se veja sangue que era também o ponto de vista da censura cvinematográfica anterior a Peckinpah e a Penn que romperam, como é sabido, com as convenções neste domínio da encenação da morte no écrã.
Wayne não percebe tão-pouco, um certo carácter temporal e cultu[r] al da própria violência. Interrogado sobre se em True Grit não recorre ele mesmo a forma muito claras de violência verbal com o uso de expressões como "son of a bitch" e "bastard", responde que, quando o filme foi feito, as expressões em causa se encontravam já banalizadas. Ou seja, a violência, mesmo a que se esconde mais ou menos habilmente, no... "humor", "instala-se" e "pega-se"--é algo de historicamente adaptável e camaleónico cujos mecanismos de introdução [e aceitação] na vida como na[s] cultura[s] Wayne parece, como digo, ignorar por completo. Com todos os riscos para a saúde dessa[s] mesma[s] cultura[s] que o facto inquestionavelmente implica.
À pergunta crucial sobre se não haverá mais violência na televisão, esta com a terrível agravante de ser real do que no cinema, Wayne só tem ima resposta---a tal envolvendo a ideia do Cinema como vocaciionado para a ilusão [para iludir?]  o que serve muito claramente para mostrar como a visão que Wayne dele tem é a velha ideia de uma arte completamente alienada no exacto sentido em que dela se pretende que vire as costas à realidade, refugiando-se num mundo de fantasia [de ilusão] onde, em última análise, toda a realidade permitida é continuamente fabicada. Violence in the movies? "But haven't we got enough of that in real life?"
Trata-se, pois, para Wayne, ao contrário do cinema que ele contesta, e que inclui o de Penn ["Bonnie & Clyde"] ou Nelson ["Soldier Blue"] de nada mudar efectivamente o que diz bem do que, para esta referência do conservadorismo [leia-se: para este símbolo da extrema direita belicista, anti-comunista---"liberals [... allow known Communist to serve as teachers [thus contributing to] pervert the natural loyalties and ideals of our kids""---e assumidamente pró-Vietname norte-americana] deve ser o papel social da Arte.

 Sobre a relação das diversas raças entre si:

 "With a lot of blacks there's quite a bit of resentment along with their dissent, and possibly rightfully so. But we can't all of a sudden get down on our knees  and turn everything over to the leadership of blacks. I believe in white supremacy until the blacks are educated to a pont of responsibility [sublinhados meus].
Um tipo de "argumentação" do status quo racista e supremacista , como é sabido, muito ouvida em países como Portugal durante o colonialismo.
Diga-se em abono da verdade que o entrevistador não se deixa arrastar pela retórica supremaciasta de Wayne e lhe pergunta mesmo, a dado passo: "Are you equipped to judge which blacks are responsible and which of their leaders inexperienced?"
A resposta de Wayne é: "it is not my judgement.. The acdemic community has developed certain tests [?] that determine whether the blaçks are suifficiently equipped scholastically. But some blacks have tried to force the issue and enter college when they haven't passed the tests and don't have the requisite background" .

E no Cinema?

Pergunta: "Can blacks be integrated into the film industry , if they are denied training and education?
Resposta"It's just as hard for a white man to get a card in the Hollywood craft unions"
"That's hardly the point but let's change the subject"

O problema dos índios

"For years American Indians have played an important--if subordinate--role in our Westerns. Do you feel any empathy with them?
Resposta: I don't feel we did wrong in taking this grat country from them [sic]. Our so-called stealing of this country from them was just a matter of survival. There were great numbers of people who needed new land ["Lebensraum"?] and the Indians were selfishly [sic] trying to keep it ti themselves".
Como se pode constatar, Hitler não teria "argumentado" de outro modo a pilhagem do petróleo romeno ou do do Cáucaso ou ainda das terras de cultivo da Polónia e da Checoslováquia para já não falar na apropriação do corredor de Dantzig a fim de chegar ao mar.
 Vale a pena registar a perspectiva de Wayne sobre o concentracionismo das reservas índias:
"I'm quite sure that the concept a Government-run reservation would have an ill effect on anyone. But that seems to be what the socialists are working for now--to have everyone cared for from cradle to grave"
É impressionante como Wayne despercebe por completo o que se lhe diz e como malbarata a abordagem dos tópicos que lhe são propostos! Aproveita o velho fantasma do "comunismo" para contornar uma abordagem séria, tão séria quanto inteligente do problema dos campos de  concentração índios que grandes realizadores como Aldrich mostraram em toda a sua inimaginável brutalidade em filmes como "Bronco Apache" com Burt Lecaster e Jean Peters.


Mas directamente ligado à experiência profissional do próprio Wayne, baastaria a propósito da questão do roubo das terras aos índios, que o intérprete de ""Fort APache" tivesse percebido minimamente o tema do filme que protagonizou para ser honestamente obrigado a mudar de ideias.
Não recusando protagfonizar o filme de Ford, setria o mínimo que deveria em boa honestidade fazer.

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