Um exemplo de como a língua portuguesa por ser muito imprecisa põe problemas terríveis a quem traduz.
Os verbos franceses "voir" [factitivo] e "regarder" [intencional] possuem equivalentes precisos nos ingleses "see" e "watch". Ora, o que Simenon usa no título é "regarder", muito bem traduzido em inglês por "watch", denotando não um facto mas um propósito deliberado, uma intenção, como refiro noutro lugar.
Durante a prevalência da linguística normativa ou directiva à Cândido de Figueiredo. A introdução de neologismos, mesmo quando necessários era rigidamente controlada; hoje, todavia, sem cair no fundamentalismo funcionalista já é possível cunhar vocábulos com o objectivo de suprir lacunas do tipo da que aqui considero. existir.
De qualquer modo, no caso vertente a tradução do título de Simenon e do filme de Harold French é francamente difícil, sem perda do verdadeiro sentido da frase-título, como deixo dito com maior detalhe noutro lugar.
Eu proponho geralmente as formas "ver" sempre que se trate de perceber objectivamente qualquer coisa com recurso ao sentido da visão e "visionar" quando existe determinação demonstrável, expressa ou não, de fazê-lo, hipótese esta que, porém, resultaria obvviamente desajeitada no caso do título.
Seja como for, o que nesta "entrada" está em causa é, basicamente, sublinhar aquilo que há de topicamente simenoneano no romance e menos no filme: o estudo do "little man" vulnerável e existencialmente frustrasdo, não-raro, tiranizado pela família, seres "minables" como essa fabuloso "homem do banco" a quiem Simenon dedicou um dos seus mais bem sucedidos "Maigrets".
A questão que comecei por levantar relativamente à teradução do título tem, em meu entender, tudo a ver com esta personagem que faz do ver um falso realizar um realizar interior, sempre adiado e por concretizar, um não fazer senão em desejo circunstância ditada pela impotência própria e a pressão não-resistida do exterior.
Daí, repito, a importância do ver na obra de Simenon, seja o de Popinga , seja o do "homem do banco", seja o de algumas heroínas do "ciclo flamengo", como essa extraordinária 'Marie du Port' que nos surgiu em português pela mão da inestimável colecção "Miniatura" dos inesquecíveis "Livros do Brasil" de outros tempos que no-la ofereceram muito adequadamente convertida na "sonsa" do título português.
"Sonsa" é aquela que perante o impacto da realidade simula uma adequação aos factos que, realmente, não existe dissimulando ela as suas verdadeiras [porém, objectivamente inexistentes] reacções aos mesmos, com os quais é, em tregra incapaz de adequadamente, por falta de coragem, lidar.
Por isso, também, me parece a escolha de Claude Rains, um "característico" do cinema no papel de "vilão" de tantos filmes de "Casablanca" e "Robin Hood", ambos de Curtiz a "Suspicion" de Hitchcock, um erro de casting gritante.
Não que, diga-se em abono da verdade e da justiça, Rains não se esforce por se apagar, tentando transmitir toda a pungente e patética fragilidade do Popinga original. A verdade, porém, é que para o cinéfilo da época em que o filme foi feito, a persona do asctor surge de tal modo identificado com o cínico polícias de "Casablanca" ou o cruel "Prince John' de "Robin Hood" que é difícil imaginá-lo na pele do frágil Kees Popinga, um "homme traqué" que apenas é levado à acção pelo pânico e pelo desespero que Simenon ideou para o seu personagem.
De qualquer modo, no caso vertente a tradução do título de Simenon e do filme de Harold French é francamente difícil, sem perda do verdadeiro sentido da frase-título, como deixo dito com maior detalhe noutro lugar.
Eu proponho geralmente as formas "ver" sempre que se trate de perceber objectivamente qualquer coisa com recurso ao sentido da visão e "visionar" quando existe determinação demonstrável, expressa ou não, de fazê-lo, hipótese esta que, porém, resultaria obvviamente desajeitada no caso do título.
Seja como for, o que nesta "entrada" está em causa é, basicamente, sublinhar aquilo que há de topicamente simenoneano no romance e menos no filme: o estudo do "little man" vulnerável e existencialmente frustrasdo, não-raro, tiranizado pela família, seres "minables" como essa fabuloso "homem do banco" a quiem Simenon dedicou um dos seus mais bem sucedidos "Maigrets".
A questão que comecei por levantar relativamente à teradução do título tem, em meu entender, tudo a ver com esta personagem que faz do ver um falso realizar um realizar interior, sempre adiado e por concretizar, um não fazer senão em desejo circunstância ditada pela impotência própria e a pressão não-resistida do exterior.
Daí, repito, a importância do ver na obra de Simenon, seja o de Popinga , seja o do "homem do banco", seja o de algumas heroínas do "ciclo flamengo", como essa extraordinária 'Marie du Port' que nos surgiu em português pela mão da inestimável colecção "Miniatura" dos inesquecíveis "Livros do Brasil" de outros tempos que no-la ofereceram muito adequadamente convertida na "sonsa" do título português.
"Sonsa" é aquela que perante o impacto da realidade simula uma adequação aos factos que, realmente, não existe dissimulando ela as suas verdadeiras [porém, objectivamente inexistentes] reacções aos mesmos, com os quais é, em tregra incapaz de adequadamente, por falta de coragem, lidar.
Por isso, também, me parece a escolha de Claude Rains, um "característico" do cinema no papel de "vilão" de tantos filmes de "Casablanca" e "Robin Hood", ambos de Curtiz a "Suspicion" de Hitchcock, um erro de casting gritante.
Não que, diga-se em abono da verdade e da justiça, Rains não se esforce por se apagar, tentando transmitir toda a pungente e patética fragilidade do Popinga original. A verdade, porém, é que para o cinéfilo da época em que o filme foi feito, a persona do asctor surge de tal modo identificado com o cínico polícias de "Casablanca" ou o cruel "Prince John' de "Robin Hood" que é difícil imaginá-lo na pele do frágil Kees Popinga, um "homme traqué" que apenas é levado à acção pelo pânico e pelo desespero que Simenon ideou para o seu personagem.

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