quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Lady For a Day" de Frank Capra [1933]

Estive a re/ver "Lady For a Day", de Capra.
Devo dizer [ou confessar?...] que não sou, nem cinematográfica nem ideologicamente, "cliente" do realizador de "Lady For A Day".que sempre achei demasiado simplista e primário, visto de hoje, irremediavelmente obsoleto, na apologia que faz de uma América ideal, verdadeiramente de compêndio ou, se assim se preferir dizer, reportando-me já a esta última película, de conto de fadas..
Capra, pelos vistos, tinha do seu próprio filme uma ideia dferente tanto que o refez a cores, anos mais tarde,  com Glen Ford e Bette Davis.
Ainda que o cinema deste cineaste referencial me deixe em geral, como digo indiferente, não me é possível negar o que há de idealista e bem intencionado, de "simpático" nele.
Re7vendo o filme, dou comigo a pensar na famosa comédia portuguesa, toda ela assente no tipo de comédia de enganos em que se insere este "Lady For a Day", uma espécie de "Pigmalião" em versão conto de fadas.
Acontece que a semelhança em causa, tal como a vejo, é mais circunstancial que outra coisa. A comédia dita "portuguesa" ou "à portuguesa" é basicamente moralista e politicamente significada, nada inocente. Feita por homens do "regfime" para ela o que está, em última instância, em causa é a atitude paternalista do castigo a aplicar aos demasiado ambiciosos e "mal comportados" que não sabem "qual é o seu lugar na paternalista e idealmente  conformada [conformista] sociedade do salazarismo.
No filme de Capra,  a ideia é sublinhar o espírito de solidariedade e de iniciativa do "little people" e[um motivo caro ao realizador de "You Won't Take It With You" [uma película de que especialmente não gosto por nela se concentrar toda a visão simplista do realizador] e, no fim, do próprio sistema , do American way representado pelo "mayor" e pelo governador do estado de Nova Iorque.
Reconheça-se a habilidade com que o argumento contorna as dificuldades criadas pelo embuste imaginado por "Dude" e pelo seu gang, não recorrendo à solução "antipática" de expor aquele, revelando a verdade.
De facto, não são apenas o "mayor" e o governador que se juntam generosamente ao plano do gangster: o próprio Capra aceita magnanimamente fazer parte dos "conjurados", recusando a tentação moralista comum à politicamente nada inocente, repito, comédia 'de enganos' "à portuguesa".
Muito mais do que aproveitada por Lopes Ribeiro, no clássico "O Pai Tirano"ou por Cotinelli na não menos clássica "Canção" é por Perdigão Queiroga que ela vai ser surpreendentemente aproveitada em filmes interessantes ainda que injustamente em geral menos prezados como "Sonhar é Facil", um título que até pode ser irónico, tendo em conta a desconfiança com que a rigidamente "verticalizada" sociedade corporativa via a iniciativa popular e especificamente, os esboços de cooperativismo que teóricos como António Sérgio preconizavam como alternativa ao económica, políticasocial  e civicamente fechadíssimo sistema corporativo.
Para concluir, diria que, se "Sonhar É Fácil" sobreviveu, regra geral fora dos compêndios de História do Cinema português sobretudo como uma comédia, um filme "para rir", povoado de personagens pitorescas e de fácil adesão popular, defendidas por actores de eleição, alguns deles, com o excepcional António Silva à cabeça, este "Lady For a Day" sobreviveu, basicamente como o conto de fadas de expressamente  se fala no próprio filme.
Pretender ver em Capra um autor socialmente empenhado, num sentido preciso, configura, do meu ponto de vista, um excesso de "wishful thinking" a não ser na vaga medida em que subjacente ao cinema que ele faz existe uma glorificação evidente de uma América «lincolniana» que nunca verdadeiramente existiu, a não ser nos sonhos de uns quantos idealistas. 
Como o próprio Capra.  

  

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