Concebi este espaço, onde pretendo ir inserindo as minhas ideias sobre os filmes`que for [re] vendo, como um tributo às minhas emoções de cinéfilo em início de carreia, quando [no abominável "Piolho" do Martim Mononiz ou no ainda mais abominável "Cinório" da General Roçadas] se podiam ver, no Lys, no Imperial, no Ideal, no Royal, no Terrasse [ligeiramente mais caro, 5$50] ou ainda no Jardim da Pedro Álvares Cabral dois filmes por cinco escudos.
Eram os familiares cinemas de "reprise" onde era uma festa para toda a família ir ao fim de semana.
Os chamados "de estreia" eram, por óbvias razões de orçamento pessoal, "off limits" para a curta mesada [12$50] que recebia à época [não me lembro de ter alguma vez, sido "aumentado" a não ser quando entrei para a Faculdade].
E ainda havia os cerca de 3$00 para o maço de "Aviz" pequeno com o qual nos em geral rebuscadíssimos "foyers" de então [Revi há pouco o do falecido "Monumental", n' "Os Três da Vida Airada" me entretinha a queimar os pulmões juntamente com a hipótese diária do miserando bolo à poeta do Gil [Vicente ] vendido por mãos que tinham sem dúvida tanto de dignas e honestas como de duvidosas em matéria de higiene à pala das quasis apanhei mesmo icteerícia com um pastel de nata arqueológico, disfarçado com montes de um chantilly amanteigado encimado potr um triângilo de ananás que era ferozmente disputado pela rapaziada fascinada pela, para adolescentes, "dificilmente resistível" tropical perspectiva do creme e do já meio ressequido fruto.
É verdade que os cinemas de estreia estavam à época muito para além das limitadíssimas possibilidades da bolsa da maioria de nós mas, a dado passo, alguém me deu a conhecer a a partir daí incontornável "geral" do Politeama, uma espécie de anfiteatro de madeira situado por cima do 2º balcão.
ERa, em qualquer caso, um lugar de magias, o lado secreto e "clandestinio" do nobre e burguesíssimo cinema das Portas de Sto. Antão.
Ao frequentá-lo, tínhamos [melhot sdizendo: cultivávamos! cultivava-a eu, seguramente!] a deliciosa impressão de só nós conhecermos aquilo e assim que o filme passava especialmente para nós--um privilégio que devolvíamos num contínuo reforço de fidelidade ao espeço e, de um modo mais geral, ao próprio Cinema.
Vi lá a que para mim permanece a obra máxima de Howard Hawks, "Rio Bravo", assim como uma charge italiana com Renato Rascel e Walter Chiari, cujo título, lamento dizer, esqueci por completo.
Vi, também os atroadores "Canhões de Navarone" e uma série de comédias alemãs com O.W. Fischer e uma actriz que adorava até pela singularidade do nome: Caterina Valente.
Mas mais ainda do que esta, eu não perdia um filme da Marika Rökk, uma actriz de passado político duvidoso pelo modo como atravessou os anos de chumbo do nazismo.
Todas estas "amizades" e um acervo de memórias inesquecíveis constituem um patrrimónio emocional e afectivo cuja posse devo àa essa para mim, já mítica "geral" do Politeama, o "galinheiro", como havia quem lhe chamasse.
Para mim, era um local de culto, tanto como o 2º balcão do Império ou do Monumental e é com o pensamento no arrepio de prazer e de genuína reverência [eu que sou contra todas as formas dela] ao ouvir as inesquecíveis badaladas anunciando a abertura da cortina enquanto escalava a íngreme escadaria que me conduzia arfante ao céu!

Ah, essas badaladas hão-de ficar marcadas nas mais doces recordações que guardo das sessões de cinema, fosse nas matinés, fosse nas sessões à noite, em que ia contabilizando uns quantos clássicos, de muitos deles já nem recordo o nome, de outros ficaram algumas imagens marcantes...o Ulisses fechado na gruta de Polifemo, as versões do Tarzan...
ResponderEliminarDepois das badaladas, era mesmo um "voo" para dentro do écran e de um mundo mágico,que nada conseguiu substituir, nem tv, nem leitores de dvds e outros. Que saudades de um bom cinema, único, mágico, a hipnotizar espectadores, a transportar-nos para um outro mundo!
São emoções de que apenas a inocência juvenil possui o segredo.
ResponderEliminarEste blog pretende ser um modo de recriar esse facínio mas agregando-lhe agora uma perspectiva crítica que o enriqueça.