segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"«Intolerance» de David Wark Griffith [1916]"


Sempre sem deixar de reconhecer o notável contributo dado por Griffith à consolidação de  de uma  linguagem cinematográfica autónoma, devo ainda assim, admitir que nunca fui especialmente devoto do seu cinema grandíloquo e manipulador, muito americanamente retórico, puritano, superficial e agressivamente kitsch.  

Por ocasião da apresentação pública numa colectividade eborense de "O Couraçado Potemkine"  de Eisenstein a cordial convite de dois amigos, o dramaturgo Armando Nascimento Rosa e José Manuel Martins responsável por um cine-clube na capital alentejana,  tive ensejo de abordar o que me parece ser a grande pecha deste primeiro Cinema com o qual o génio narrativo e a especial inteligência visual e especificamente plástica do mestre russo veio colidir frontalmente, fornecendo um contributo crucial para um "específico cinematográfico" ou "cinematicidade" realmente autónoma, algo que o cinema de Griffith não logra, a meu ver, alcançar.
Parece-me com efeito que só com a narração verdadeiramente por imagens, isto é, a partir das imagens usadas na narrativa como sucedâneo da palavra, tal como essa substituição nos surge não apenas no clássico "Potemkine" [talvez mais até no prodigioso "Alexandre Nevski" onde a visualidade concebida como discurso conta a sua própria história tanto como a do herói russo quer dá o nome ao filme] se iniciam efectivamente o Cinema e a sua História.
Na origem com a importante excepção do cinema-reportagem ou cinema verdade dos Lumière, a ficção filmada utiliza secundariamente as imagens como a edição livresca utilizava a estampa, i.e. as ilustrações: como um suporte meramente cinscuntancial do discurso verbal--que continua a operar como o fundamento ou alicerce reais da narrativa.  
No caso do cinema mudo [e isso é muito claro em "Birth Of a Nation", por exemplo são as legendas que funcionam como veículo real das [aliás, repugnantes] conhecidas teses racistas de Griffith operando as imagens como a respectiva ilustração ancilar.
É a fase da 'literatura filmada' muito mais do que do Cinema, por muito apreço que possamos ter por alguns recursos narrativos e especificamente plásticos utilizados por Griffith nos seus filmes. Um outro aspecto que me interessa de modo particular no filme de Griffith é de natureza extra- ou meta-cinematográfica e prende-se com o uso que o realizador faz da própria História.
Trata-se, aliás, de um aspecto que tenciono abordar com maior detalhe numa tese que pretendo defender sobre "o Portugal tanatópico" em concreto sobre as relações disfuncionais entre uma certa visão teocêntrica "finalista" da realidade e o nosso modo tópico de representar até cientificamente essa mesma realidade.
A minha tese é que conceber a História como um mero instrumento destinado a "provar" sentidos prévios e providenciais para os factos envolve fatalmente o risco de des-valorização e «desessencialização» contínuas da própria realidade como coisa em si ["Ding an sich"] algo que o conflito típico entre matéria e espírito [com o triunfo deste último e a instrumentalização da primeira aspecto comum na visão cristã da realidade] claramente  potencia.
Em Griffith a História é manifestamente usada [instrumentalizada] para "demonstrar" princípios morais prévios, como se não contasse enquanto realidade dotada do seu próprio sentido e da capacidade para gerar sentido ou sentidos específicos.
Este modo de conceber o real como um mero instrumento ou pretexto para provar o que quer que seja fora de si faz com que eu me permita ver no cristianismo enquanto expressão significadora do olhar cognitivo, não uma teoria da realidade mas uma teoria para essa mesma realidade--que me parece ser a grande pecha do «olhar cognicional» formado a partir da integração do cristianismo aos modos tópicos de "conhecer" e representar teórica e mesmo cientificamente o real no Ocidente.
O filme reflecte essa mesma relação, não hesito em dizer: profundamente opressora e in/essencialmente disfuncional entre os factos, o real e o respectivo "significado", uma relação topicamente conflitual na qual o "significado" das coisas as precede e [literalmente] em termos de episteme não raro oprime. A tese do filme é a de que a intolerância que lhe dá o título usa a História para se manifestar, mudando apenas de roupagem e/ou de circunstância conforme a época em que se manifesta, ou seja, aquele mesmo olhar des-esssencializador [ou, talvez seja mais rigoroso dizer: des-existencializador] sobre a realidade a qual é viasta sempre como algo que se encaminha fatalmente para um fim natural, prévia e também, providencialmente predefinido o que só por si configura uma desvalorização, neste contexto, perfeitamente  natural, da capacidade humana para intervir na História e determinar o curso do real. Também destas perspectiva meta-cinematográfica, o filme de Griffith me parece interessante na medida em que permite perceber um pouco melhor como o resultado teórico e prático natural do teocentrismo é o anti-humanismo, a ancilarização do humano naquilo que ele tem de mais intrinsecamente inalienável e material, específico, numa palavra, reduzido para todos os efeitos à condição secundária instrumental e menor de simples estação ou estádio na afirmação autónoma de um espírito supostamente independente de toda e qualquer condição material que o habita.
O puritanismo norte-americano fez deste motivo uma espécie de constante tópica cultu[r]al que o cinema de Griffith ilustra em toda a sua muito debatível extensão.   




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