Eu diria que é um Hitchcock atípico. Houve quem lhe chamasse um tour de force : a filmagem no cenário único de um salva-vidas envolvia riscos imensos que Hitchcock soube tornear com mestria, desenhando personagens dramaticamente [quase teatralmente] consistentes e, atrever-me-ia a dizer teatralmente eficazes.
O cenário fixo do filme sugere, tal como viria a suceder com "Rope", o palco teatral pelo que é quase como uma aliás interessante peça de teatro que o filme pode, a meu ver, ser julgado e apreciado.
Há, com efeito, toda uma lógica teatral que o atravessa e sustenta. Em geral, bem, é preciso dizer. Muito do filme passa-se, como no teatro, fora dele. Ele limita-se a recolher as consequências de situações passadas antes e, repito, fora do écrã, trabalhando sobre o que há de trágico em situações que não podem já ser alteradas mas tão-somente, reflectidas. No filme prevalece com efeito uma lógica claustrofóbica que é oibviamente física mas também psicológica com cada um dos personagens encerrado na teia do seu drama pessoal quando não dos seus óbvios preconceitos.
A acusação de que a película foi alvo de ser pró-alemã parece-me, por outro lado, completamente injustificada. Seria mais tentador, de facto, qualificar de preconceito anti-alemão muito do discurso do filme. O retrato de 'Willy', papel desempenhado pelo actor Walter Slezac é, com efeito, particularmente pouco lisongeiro para uma certa imagem, mais ou menos propagandística, de alemão. Não esqueçamos qwue "Lifeboat" é um filme de 1944, realizado, portanto, em plena Segunda Guerra Mundial com um elenco encimado por uma Garbo ou Dietrich menos mítica ainda que não necessariamente menos famosa: Talullah Bankhead, conhecida por não usar roupa interior.
Pessoalmente, por mais que analise, não consigo achar aqui nenhum dos motivos hitchcockianos tópicos. Há, claro, a brusca ruptura da normalidade configurada no naufrágio mas em relação ao grande período norte-americano, o filme é, volto a dizer, atípico o que está, porém longe de equivaler a desinteressante ou descuidado e mal feito.
Muito longe disso e não falo apenas como hitchcockiano "devoto" e "praticante"!

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