Escandalosamente mal apresentado, como é habitual [é uma verdadeira vergonha a superficialidade com que é tratado na estação dita pública--que devia estar a formar públicos em vez de servir de asilo para incompetentes e medíocres de toda a espécie!--o Cinema nestas pseudo-apresentações, foi ontem exibido na RTP Memória o filme de Lang "While The City Sleeps", um dos últimos dirigidos nos E.U.A. pelo realizador de "Metropolis" e também, juntamente com "M..." "Fury" e "The Big Heat", um dos seus preferidos.
Pretexto para promoções pessoais das pequenas vaidades que, entre nós, tomaram de assalto o inimaginável equívoco que é o serviço público [?] de televisão, estes programas de cinema continuam a ser pelo modo como ali os tratam, confundidos com as inutilidades exumadas que são as pepineiras do Clímaco ou os frutos da adolescência retardada do Isidro.
Ontem, a vítima foi Lang como antes tinham sido Mamoulian e Tyrone Power confundidos pela incompetência e negligente preparação do "apresentador" respectivamente com Fred Niblo e Douglas Fairbanks.
Não porque a criatura [cujo nome de resto, faço absoluta questão de ignorar...] tenha voltado a "enganar-se no filme" mas porque mais uma vez, ao apresentar ao público de hoje, uma preciosidade artística como o filme de Lang, se revelou incapaz de dizer o que quer que fosse já nem digo de original e importante mas, pelo menos, de interessante sobre o cineasta e/ou a sua obra.
Lang é o cineasta que conheço que melhor exprime a abjecção autoritária, o nazi-fascismo cujo peso sofreu e acabou por levá-lo ao exílio.
A reconhecida ambiguidade [omni] presente em toda a suas obra, a infidez da bondade da ordem é, a meu ver, uma componennte importante daquilo que se acha no centro do seu modo de conceber os fundamentos básicos da acção humana.
Situada esta sempre muito longe dos mecanismos opressores que a determinam e, de um modo ou outro, conduzem.
Não por acaso, Frieda Grafe, Enno Patalas e Hans Helmut Prinzler na obra ["Fritz Lang"] que dedicaram ao mestre alemão, chamam a atenção para a linha de continuidade existente, segundo eles, entre o tenebroso Doutor Mabuse e o patrão do grupo jornalístico de "When the City Sleeps" 'Lord Ashwood', papel desempenhado pelo melífluo e sempre sinistro e inquietante, George Sanders.
Em ambos os casos, tal como em "M..." com a equívoca aliança entre a polícia e o bas fond berlinense, travestido de multidão justiceira ou em "Fury" onde esta última se converrte em "lynching mob" genuína, fica perfeitamente claro o fosso que separa os indivíduos do respectivo destino, surgindo este, por sua vez, como uma entidade manipuladora ou abertamente opressora, como em "Spionen", por exemplo.
Eu atrever-me-ia mesmo a dizer que se há um específico langueano
é precisamente este que coloca entre cada homem e a respectiva acção um demonstrável e insuperável fosso onde a toda a trágica fragilidade da condição humana se torna evidência filosófica e também [já agora] argumento cinematográfico, como sucede neste impressivo "While The City Sleeps" que, volto a dizer, mais uma vez a RTP não soube apresentar ao seu público.
Eu atrever-me-ia mesmo a dizer que se há um específico langueano
é precisamente este que coloca entre cada homem e a respectiva acção um demonstrável e insuperável fosso onde a toda a trágica fragilidade da condição humana se torna evidência filosófica e também [já agora] argumento cinematográfico, como sucede neste impressivo "While The City Sleeps" que, volto a dizer, mais uma vez a RTP não soube apresentar ao seu público.
LEGENDA DAS IMAGENS: [Rodapé] Rhonda Fleming ['Dorothy Kyne'] e Vincent Price 'Walter Kane Jr.] num momento de "While the City Sleeps", de Fritz Lang
[Em cima]: Dana Andrews ['Ed Mobley'] e Thomas Mitchell [' Grifith'], dois dos principais protagonistas de "While The City Sleeps"
[Em cima]: Dana Andrews ['Ed Mobley'] e Thomas Mitchell [' Grifith'], dois dos principais protagonistas de "While The City Sleeps"


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