"The Horse Soldiers" é John Ford no seu melhor.
Soberbo gestor de personagens e situações, Ford constrói aqui um "Fort Apache" mais complexo e mais profundo, animado de um espírito pacifista extremamente bem transmitido, sem sombra de retórica.
Hábil e inteligentemente, Ford abre com o lado heróico e empolgante da guerra, uma espécie de máscara ilusória da realidade histórica e humana que, no filme, vai lenta mas consistentemente dando lugar à dor que inevitavelmente lhe subjaz.
O filme gira em torno da relação de amor-ódio ou, se assim se preferir dizer, do choque frontal entre as personagens do 'coronel Marlowe' [John Wayne, de quem Ford soube quase sempre extrair o que nele havia de cinematograficamente mais impressivo assim como de narrativa e humanamente mais complexo] e do médico 'Hank Kendall' [William Holden] um par dicotómico a que se junta a personagem de Hanna Hunter, uma magnífica Constance Towers que em, "The Trial of Sergeant Rutledge", também de Ford, não tinha tido uma tal ocasião de brilhar.
O filme é, como disse, todo ele um espantoso libelo pacifista e humanista manifestando o realizador nele a sua admirável aptidão para humanizar personagens complexas e à partida menos recomendáveis como este implacável 'colonel Marlowe' mas, sobretudo, o angustiado racista Ethan Edwards do sublime "The Searchers".
Em termos estilísticos, "The Horse Soldiers" «é» John Ford, o estilista em plena maturidade, como um pintor, sempre em busca do movimento dentro do espaço de cada "frame", valorizando com uma inteligência visual e plástica o preenchimento do espaço dentro dele, em lugar de buscá-lo na manipulação mais ou menos fácil da própria câmara de filmar.
Muito mais do que uma colecção ou teoria de imagens em sucessão, cada filme de Ford é, com efeito, por via de regra, uma obra que respira por cada fotograma, constituindo a "respiração" final da obra a impressiva dialéctica das várias "respirações" articuladas e unidas num objecto único, vivo e orgânico que é o filme.
A preocupação pacifista de Ford bem expressa no registo progressivamente escatológico que o filme vai assumindo com as sucessivas mortes e amputações que o povoam não impede Ford de manifestar mais uma vez a sua característica habilidade para captar toda a estética de um corpo de exército em movimento, assim como a bela e ideal dignidade e não-raro consistente [ainda quando complexamente paradoxal e angustiada] integridade dos homens que o compõem.
De destacar mais uma fabulosa criação de Hank Worden, um notabilíssimo secundário a que Ford recorre também no já citado "The Searchers", cujo 'Mose' aparece aqui trasvestido de pastor religioso, num curtíssimo papel que não passa seguramente deaspercebido aos admiradores do cinema de Ford e da fabulosa galeria de personagens de composição que não apenas o povoam como, sobretudo humanizam e tornam por vezes quase... "dostoievskiano"...